O sol cedia seu lugar à lua num céu sem nuvens sobre a praia tropical. A calmaria se expressava nas gaivotas plainando contra a brisa, parecendo estacionadas num quadro. E era esse quadro que um senhor na melhor idade tentava reproduzir na varanda de sua casa.
Já fazia alguns anos que Cauã Apoena havia se aposentado e se retirado para uma pacata cidade litorânea no interior da Bahia. O merecido descanso havia sido conquistado após uma brilhante carreira no serviço de inteligência brasileira.
O comunicador holográfico emitiu um chamado e dona Jovina foi atender.
— Filho?! — Disse dona Jovina com a mão no peito, assustada com a presença virtual.
— Bom dia mãe. — Responde um aflito rosto mais jovem.
— Ainda não me acostumei com esse comunicador Junior. É como se você estivesse aqui. — Dona Jovina já mais calma abraçava o filho. — O que aconteceu? Você ta parecendo aflito.
— É esse novo trabalho mãe. Mal comecei a trabalhar na defesa nacional e vou ter que quebrar o isolamento de vocês com notícias nada boas. Precisava dos conselhos do mais velho, ele está ocupado?
— Muito. Quando ele começa a pintar na varanda fica imerso por horas no mundo das cores, formas e texturas. Junior, espero que saiba o que está fazendo. Você sabe que o médico disse que seu pai não deveria ser incomodado com quaisquer notícias. Ele anda tão calmo, a pressão dele anda tão boa, espero que o que tenha que falar não o faça piorar novamente.
— Não ligue para o que sua mãe diz Junior — disse seu Cauã entrando na sala — a que devo a honra dessa visita virtual? — disse abraçando o filho.
— Bom dia pai, sei que não deveria incomodá-lo com informações mundanas, mas a verdade é que preciso dos seus conselhos.
Nisso a chaleira começa a apitar e dona Jovina corre para apagar o fogo.
— Sua mãe vai fazer um chimarrão, nos acompanha? — disse seu Cauã sentando ao sofá.
Junior sorri. — Acho que vem bem a calhar. O clima aqui está muito tenso, e não estou conseguindo colocar os nervos para pensar. Vou pedir para minha secretária preparar um para mim.
— Jussara, por favor, prepare um chimarrão e traga aqui para sala. — disse Junior para o comunicador que estava sobre sua mesa de trabalho.
— Esse seu novo trabalho é bom mesmo. — disse seu Cauã espantado e orgulhoso ao mesmo tempo. — Quanto tempo meu filho, ia lhe perguntar como está seu trabalho, mas pela sua feição acho que a melhor pergunta seria: A guerra já foi declarada? Ou ainda, preciso construir um abrigo anti-bomba? — perguntou seu Cauã com a mesma naturalidade de quem questiona se precisa levar agasalho ao visitar uma cidade do sul.
— Como está pai? Espero que essa intuição não tenha nada haver com leituras escondidas de jornais. — respondeu Junior impressionado.
— Não filho, nada disso. Se você está na frente da defesa nacional, tendo até secretária que lhe serve chimarrão, e precisa dos meus conselhos é por que a situação é grave. E mesmo com recomendações médicas você decide me importunar, então só pode ser uma guerra. — disse seu Cauã já com os ritmos cardíacos em aceleração.
Dona Jovina volta à sala com o chimarrão e alguns biscoitos de maizena.
— Se acalme bem, deixe Junior falar. — Dona Jovina passa a cuia cheia para seu Cauã, junto com seu remédio para ansiedade.
— Saudades desses biscoitos mãe. — Disse Junior olhando para a bandeja.
— Aposto que sua secretária não consegue fazer uns desses. — Disse seu Cauã tecendo elogios em sinal de agradecimento à esposa.
— Acho que amanhã iremos a Salvador fazer alguns exames, ai aproveito e lhe mando alguns biscoitos pela transportadora instantânea. — Disse em tom amável dona Jovina.
— Bom adoraria recebê-los o mais rápido possível, mas acho que vou precisar pedir para que adiem essa ida á Salvador, pelo menos até as coisas voltarem ao normal. Em quanto isso posso me conformar com alguns biscoitos industriais. — Junior se senta e toma fôlego para começar a falar. — Como o Brasil tem sido nesse século 22 o centro econômico do mundo, ataques contra nossa soberania se tornaram freqüentes, mas ainda não havíamos nos deparados com esse tipo de situação. A guerra na verdade ainda não foi declarada, pois não sabemos contra quem estamos lidando. Na hora que alguém assumir ou descobrirmos quem está por trás, a guerra começará. O primeiro ataque ocorreu nessa segunda na estação de metrô de Porto Alegre, às 18h na estação central. O segundo e o terceiro seguiram o mesmo estilo e horário, mas em Curitiba e São Paulo, na terça e na quarta-feira respectivamente. Hoje teria ocorrido no Rio de Janeiro, mas por algum motivo o homem bomba não explodiu.
— Nossa senhora, — dona Jovina leva as mãos à boca e começa a se abanar como se o ar estivesse se exaurido do ambiente.
— Então não haverá guerra a declarar. — Seu Cauã deixa o chimarrão de lado e pega o remédio para ansiedade.
— Como assim? — Perguntaram em uni sono dona Jovina e Junior.
— Nenhum país atacaria civis sem reivindicar a autoria, e muito menos em prestações. Um poderoso grupo extremista poderia ser responsável, porém também faria os ataques ao mesmo tempo. Provavelmente Junior, seu alvo não é um ponto fixo, mas móvel. Eles desafiam nossa inteligência nos dando a data e o local do próximo ataque, e esse é o ponto fraco da estratégia, por isso devem ter anulado com algum ponto forte. Aposto que utiliza algum ônibus ou um veiculo grande o suficiente para levar todos seus integrantes e a estrutura necessária para os ataques. Se tivesse em algum lugar fixo poderia ser facilmente identificado bem como se utilizasse transportes públicos. Isso é obra de um psicopata, que está desafiando a defesa nacional a conseguir lhe capturar. Acredito que com esse integrante que não explodiu seja fácil descobrir o culpado não é?
Dona Jovina estava meio desconfiada dessa seqüência de raciocínio, mas preferiu não interferir.
Nisso Jussara, secretária de Junior entra na sala e deixa sobre a mesa o chimarrão e uma mídia de documentos sigilosos, saindo sem fazer qualquer barulho.
— Impressionante pai, realmente faz sentido o que diz. O problema é que esse homem bomba que capturamos ainda não nos esclareceu muita coisa. — Disse Junior enquanto colocava algumas fotos e vídeos na mesa de visualização compartilhada. — Veja, essa é a imagem do sujeito entrando na estação.
No vídeo aparece um homem de uns 40 anos de estatura mediana, terno preto, gravata vermelha, boina preta com uma pasta executiva comum caminhando para a estação central.
— Nessa pasta ele carrega os explosivos. — Alerta Junior.
O vídeo segue e de repente aparece um jovem maltrapilho com camisa típica de hacker abordando o executivo e fazendo algumas perguntas. O homem parece não entender o que o sujeito lhe pede e continua caminhando quase num movimento mecânico de robô. O jovem indignado tenta puxar a pasta, mas essa parece estar presa com uma algema a mão do executivo. Por fim, ainda sem conseguir provocar qualquer reação, ele pega a boina e some na multidão. O executivo fica inerte, até alguns agentes o abordarem e com o comunicador chamarem a segurança.
— Ele continua sem dizer uma palavra desde que o encontramos, não meche um músculo se quer, nem para comer ou beber. Desconfiamos que fosse um tipo de robô, porém os testes básicos mostraram que se trata de um ser humano. Tivemos que sedá-lo para fazermos mais testes. — Disse Junior querendo saber o que pensava seu pai.
— Realmente o andar dele no vídeo parece o de um robô controlado. Mas o mais estranho nessa história é um homem bomba de 40 anos. Se a ira pode levar um homem ao ponto de querer atacar um país com a própria vida, o tempo traz as possibilidades racionais. Por isso os jovens são as armas mais facilmente manipuláveis. Um homem de 40 anos já teria visto que existem outras formas mais inteligentes de mudar o mundo. Outro ponto interessante foi o fato dele ter “desligado” depois que sua boina foi roubada. Acredito que a boina escondia algum tipo de manipulação remota. Vocês encontraram mais alguma evidência? — Perguntou seu Cauã pegando mais um biscoito.
— Quando descobrimos a característica desse homem bomba, analisamos os vídeos de segurança das outras estações atingidas e verificamos que os outros três se vestiam da mesma forma e com o mesmo andar mecânico. Estou esperando o resultado dos DNAs que recolhemos nas três explosões. Acredito que em alguns instantes terei o resultado de algumas centenas de possíveis DNAs. — Disse Junior olhando para o computador e verificando a caixa de mensagens.
— Nossa, no meu tempo os testes levavam dias. — Disse seu Cauã estupefato com os avanços da tecnologia e imaginando como sua vida teria sido mais fácil se tivesse acesso a toda aquela parafernália.
— Bom hoje não podemos desperdiçar tanto tempo, pois se os crimes ocorrem numa escala de horas, assim deve ser a defesa. — Nisso Junior toca novamente o comunicador e pergunta para a secretária num tom de cobrança: — E ai Jussara, alguma novidade sobre os DNAs?
Nisso uma voz doce responde com toda a calma do mundo: — Já está sobre sua mesa, ao lado de onde deixei sua cuia.
Junior agradece meio envergonhado por não ter visto e passa os olhos nos relatórios.
— Filho, já que tem os dados em mãos, acho que deveria pedir para cruzar essas informações. — Sugeriu seu Cauã.
— Como assim? — Perguntou Junior já meio sem graça de ter que pedir explicações para seu pai.
— Se os testes mostraram que se trata de um ser humano, que provavelmente é manipulado a distância, e parece que saíram todos da mesma “forma”, existe a possibilidade de estarmos lidando com clones. O cruzamento dos DNAs tiraria essa dúvida. — Disse seu Cauã colocando água na cuia de Junior.
— Tem razão, vou providenciar isso agora. — Junior liga o comunicador e novamente Jussara aparece na tela: — Jussara, por favor, providencie um relatório buscando por DNAs que estavam nos três acidentes, junto com o DNA da branca de neve, digo homem bomba.
— Num instante senhor. — Jussara respondeu prontamente. Antes que os assuntos pudessem voltar na sala ela já havia enviado uma mensagem com os dados solicitados.
— Incrível. Quatro DNAs idênticos. — Junior jogou o relatório digital na mesa de compartilhamento para que seu pai visse.
— Bom nesse caso acredito que esse DNA seja o da pessoa que está por trás disso também. Pois ele não parece ter feito uma seleção genética atrás do melhor DNA para cumprir seus planos. Escolher o próprio DNA deve fazer parte do disfarce para fuga. Seria difícil distinguir quem é o verdadeiro dono da ira ou simplesmente é manipulado pela ira do dono. Acho que encontramos seu ponto forte, agora podemos nos aproveitar do ponto fraco. — Seu Cauã esticava as pernas e alongava as costas depois de se levantar da cadeira.
— Muito obrigado por abrir meus olhos pai, já sei o que precisamos fazer para conter essa ameaça. — Disse Junior em tom de agradecimento e já pensando nos próximos passos para reverter essa situação desfavorável.
— Eu é que agradeço filhão, é sempre bom para um pai saber que ainda pode ser útil para seu filho. Estou muito orgulhoso de você, e tenho certeza de que o país não poderia estar mais bem protegido do que com você no leme. — Disse seu Cauã já se despedindo. — Espero notícias animadoras amanhã.
— Meu filho, tome cuidado, — dona Jovina abraça forte o filho — quero te ver com uma cara melhor amanhã. Lembre de comer bem no café, vai dar tudo certo, você vai ver.
— Sem problemas mãe, amanhã eu chamo vocês novamente para contar boas notícias. — Junior abraçou os dois e se despediu desaparecendo da sala aos poucos à medida que a transparência aumentava.
O dia passou muito lento naquela sexta-feira. Seu Cauã exercitava a paciência com as pinceladas que custavam a chegar no volume necessário para criar as expressões e formas desejadas.
Dona Jovina estava aflita. O bolo de chocolate que preparava acabou queimando, e ela precisou refazer.
“Vou pedir um forno a laser programável de natal para o Junior. Não faz sentido ter uma velharia como essa só por que sua majestade gosta do sabor dos fornos antigos. Sou capaz de apostar que ele nem notaria a diferença, visto que raramente entra na cozinha.” Pensava dona Jovina. “E essa história agora de clones de boina. Tomara que estejam certos, pois se não vão achar que Júnior ta ficando louco e meu forno a laser programável vai ficar cada vez mais longe.” Dona Jovina se sentiu culpada com esse pensamento, pois as vidas de muitos brasileiros estavam em jogo e preferiu desparecer com as agulhas de nano tricô.
Já era noite quando o comunicador anunciou a chamada holográfica. Seu Cauã já estava meio sonolento, mas rapidamente estava na sala, seguido de dona Jovina.
— Boa noite pai e mãe — Junior apareceu, deu um grande suspiro e abraçou com alegria os pais. — Depois desse dia, acho que garanti meu cargo por alguns anos, e devo isso a vocês.
— Que maravilha meu filho — dona Jovina já estava com os olhos cheios de água, e foi amparada por seu Cauã.
— Conte logo meu filho, já não somos tão jovens para suportar tanto suspense. — Implorava seu Cauã forçando a voz para esconder a emoção.
— Decidimos apostar na sua teoria e monitoramos todos os veículos de grande porte que fizeram o trajeto dos dias anteriores e que estavam se deslocando para o suposto alvo de hoje. Chegamos a um número de 200 prováveis veículos. Quando chegou próxima à hora do ataque, monitoramos todos os sinais de trafego nas redondezas da estação principal e vimos as que se comunicavam com os 200 veículos. Isso resultou em dois veículos suspeitos e na segunda abordagem encontramos o ônibus que o senhor havia sugerido. Dentro dele havia dois clones e o responsável por todos esses ataques que aterrorizaram o Brasil por quase uma semana. Depois de desligar os equipamentos foi fácil encontrar o homem bomba do dia, que já estava quase chegando ao seu objetivo, travado como o outro de ontem.
— Parabéns meu filho, eu não teria feito melhor. Mas e como é que fez para distinguir qual deles eram clones e qual era a matriz? — Perguntou seu Cauã já mais controlado.
— Foi bom você ter colocado esse ponto ontem. Hoje quando os interceptamos, todos se diziam clone. Teve um que chegou quase a nos confundir, porém a diferença de idade embora fosse sutil, era significativo o bastante para determinarmos qual era o mais velho. Bastou uma observação nas atividades cerebrais para comprovarmos que aquele também era o que tinha mais informações e também a deformação cerebral característica de seres que não controlam a ira. Visto que essas características foram transpassadas para os clones via material genético e manipulação, ficou decidido que todos iriam pagar pelos crimes. Não poderíamos correr o risco de soltar os clones com potencial tão destrutivo. — Junior estava confiante.
— Já lhe passou a possibilidade deles serem todos clones? E a mente por trás disso estar à solta? — Perguntou Cauã como se o jovem estivesse se precipitando.
— Bom esse é um dos motivos pelo qual não posso deixar nenhum clone solto. O DNA deles está no banco de dados de todos os serviços públicos. Se essa seqüência genética aparecer em qualquer meio de transporte no mundo a gente saberá imediatamente. E claro, eles estão sendo todos monitorados pelos melhores dispositivos da ciência. Se eles pensarem em leite, a gente fica sabendo se eles tomavam direto na caixa, se é integral e qual a marca que eles tomaram. Por tanto se houver mais alguém envolvido, saberemos. — Disse Junior sabendo que a tecnologia era fruto do seu triunfo.
— É parece que os tempos estão evoluindo depressa demais para mentes como a nossa. — Disse seu Cauã atordoado com tantas informações.
— Estou orgulhosa de você meu filho. Bem que você podia vir nos visitar no natal, ai você já aproveita e traz um daqueles fornos de última geração para sua mãe, para assarmos um peru e comemorar essa sua conquista Junior. Seria ótimo reunir a família novamente. — Implorava dona Jovina.
— Claro mãe, e pode preparar lugar para mais uma convidada. Quero apresentar uma pessoa especial para vocês. — Disse Junior já imaginando a abordagem necessária para reduzir os danos dessa decisão.
— É isso ai filhão, estamos ansiosos por sua vinda. E chega de sustos né? — Disse seu Cauã já se despedindo.
— Com certeza pai, espero só importunar vocês com amenidades. Saúde e força para vocês. Estou esperando os biscoitos mãe.
— Pode deixar filho. Mande lembranças para a pessoa especial. — Disse dona Jovina beijando seu filho.
E Júnior havia desativado o comunicador quando recebeu um chamado de Jussara.
— Senhor foi informado que um hacker de apelido “Brasira” assumiu as autorias dos atentados, postando num blog de internet as informações confidenciais sobre clonagens e manipulação cerebral. Estamos rastreando a identidade digital, mas parece que ela foi adulterada.
— Aquele maltrapilho que roubou a boina, aplique reconhecimento facial aprimorado e compare com nosso banco de dados de jovens na casa dos 20 anos. — Disse Junior já lamentando o natal que perderia.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
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