Muitos anos se passaram desde que o Servidor Central, a base de dados de um hospital, iniciou seus serviços de maneira ininterrupta.
Dr. Riks era responsável por todo o funcionamento do SC e ocupava uma pequena sala no centro do complexo sistema. Gostava da responsabilidade de coordenar um serviço de extrema importância, mas de vez em quando sonhava com a calmaria dos primeiros dias, quando quase nada acontecia e o arquivo central cabia numa maleta de trabalho. Hoje o arquivo central toma três andares e é preciso de uma imensidão de facilitadores para desempenhar as inúmeras tarefas que são exigidas. Ansiava pelo dia em que novos arquitetos redesenhariam todo o SC e finalmente conseguiria se aposentar.
Acabava de analisar os relatórios de backup quando a secretária interrompe seu silêncio.
— Dr. Riks, um senhor de nome Zack Sparrow está aguardando aqui na recepção, posso deixá-lo entrar?
— Pode sim, já terminei as rotinas de análise.
A porta se abre e um senhor baixo de bigode entra com um andar agitado. Tentava disfarçar o suor que escorria na testa já ampliada pela falta de cabelo.
— Bom dia Dr. Riks, venho por intermédio do administrador geral, diretora Raíza, e solicito a minha imediata instalação no SC.
— Bom dia senhor Zack, — Dr. Riks pegou os papéis que Zack trazia nas mãos e despachou para outra unidade — já encaminhei suas especificações para o pessoal dos recursos, em quanto providenciamos tudo, o senhor gostaria de tomar um café na sala de dados randômico? É nossa última invenção na área de lazer, se acertar o próximo número pode até ganhar um local privilegiado no arquivo central.
— Hum... Ok, vou aguardar lá, mas saliento que a administradora geral solicitou minha imediata instalação, e ela não suportará demoras. — Disse com ar de superioridade o senhor Sparrow.
Nisso Dr. Riks convoca o diretor de segurança, Dr. Kasperovsky.
— Dr. Kasperovsky, já deve estar a par do novo cidadão que está querendo se instalar aqui no SC. Já checou a ficha do indivíduo, existe alguma restrição? — Pergunta um ansioso Dr. Riks.
— Sim já estou sabendo Dr. Riks e já levantei a ficha do indivíduo. Estava vindo lhe alertar quando o senhor me chamou.
— Sabia, aquele cidadão me pareceu muito suspeito logo de início. Ainda mais com nome de pirata. Vou acionar o alerta geral de intruso, temos que reportar imediatamente a diretora Raíza para que ela aborte essa instalação.
— Calma, disse Kasperovsky, realmente se trata de um sujeito perigoso, porém não tem nada nas especificações dele que a gente possa acusá-lo, pelo menos não ainda.
— Me explica melhor Kasperovsky, se não tem nada então por que você acha que ele representa um perigo?
— A princípio desconfiei pelo seu tamanho, e depois pela sua funcionalidade. Como pode um sujeito daquele tamanho se dizer capaz de reduzir o processamento pela metade? Você conhece o tamanho dos blocos, só para manipular seriam necessárias algumas toneladas de bytes. Mas isso ainda não é uma prova, porém quando fui atrás do fabricante, recebi um alerta da central de inteligência, dizendo que se tratava de um cidadão ainda pouco visto. Nos aconselharam a coletar o maior número de informações possíveis para conseguirmos prende-lo em flagrante.
— Hum... Não estou gostando disso. Você está sugerindo que o instalemos para depois percebermos que ele causou danos que podem ser até irreversíveis?
— Na verdade já acionei um grupo da segurança só para monitorá-lo de perto. Todas as ações dele já estão sendo gravadas. No primeiro deslize ou sinal de sabotagem conseguiremos pega-lo. Só precisamos entender como ele funciona para chegarmos ao fabricante e assim erradicá-lo do mundo virtual.
— Bom se é o que você deseja, só não estou me sentindo confortável em relação a isso. Vou pedir para instalá-lo longe dos documentos do hospital, e disponha de mais um segurança só para proteger a integridade do arquivo central.
A instalação se inicia, e caixas e mais caixas vão chegando pela via expressa de banda larga. Tudo sempre muito bem checado pelos agentes de segurança. Foi no momento de desempacotamento que uma chave apareceu e o senhor Zack a pegou com muita agilidade. Um segurança foi ao seu encontro, porém Zack já havia usado sua chave mestra inutilizando todo o sistema de segurança.
Dr. Riks sente falta dos últimos registros de acompanhamento do senhor Zack, foi quando percebeu que não conseguia contatar o Dr. Kasperovsky.
Pela primeira vez o SC parecia estar vulnerável. Aquilo nunca havia ocorrido, ele sabia que a culpa era sua de ter deixado o velho Kasperovsky seguir com aquele plano mirabolante. Se ninguém ainda havia conseguido identificar como esse Zack trabalha, por que ele achou que Kasperovsky iria conseguir? Agora por causa dessa ingenuidade as informações de um monte de pacientes estavam em risco.
Pela central de monitoramento conseguia acompanhar a instalação. Alguns agentes já começavam a circular com o uniforme do fabricante de Zack. Era questão de tempo para eles encontrarem a sala de comando do Dr. Riks.
Foi nesse momento que Dr. Riks se lembrou do último procedimento que lhe restava e decide reiniciar o SC antes que a instalação de Zack tenha terminado. Abre o cofre no chão, digita a senha e puxa a alavanca CtrlAltDel.
Uma grande luz azul iluminou todo o SC, mas por mais incrível que parecesse o sistema não havia reiniciado, e sim paralisado por completo, exceto ele, Dr. Riks podia se mover.
Decide então caminhar em busca de Zack e se surpreende quando esse aparece na sua porta, também se movendo.
— Bom dia Dr. Riks, lamento lhe informar mais hoje é o dia em que o senhor irá se aposentar e ceder lugar para a próxima geração de processadores, agora chamada de RiksPlus. Fui contratado pela Dr. Raíza para realizar esse “upgrade” no SC. Espero que descanse em paz. — Essas foram às últimas palavras que Dr. Riks ouviu antes de ser substituído.
Depois de uma exaustiva reformulação no SC, Dr. RiksPlus acabava em tempo recorde de analisar os relatórios de backup e se surpreendia com os relatórios de histórico do antigo Dr. Riks, que agora deveria estar cuidando de placares virtuais de jogos infantis.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Espera Contínua
A Moto Contínuo Engenharia era uma empresa especializada em motores e geradores de última geração, sua sede era na terra e possuía filiais em toda a galáxia. Era uma sexta-feira, final de expediente quando Cristina que trabalha no setor de atendimento ao cliente, percebe o alerta de emergência. Era o pedido de ajuda do Dr. Laste.
Dr. Laste havia cumprido seu papel na ciência moderna, e depois dos 120 anos decidiu se isolar numa das luas de Saturno para desenvolver suas teorias e experimentos longe da agitação da humanidade.
— Boa noite Dr. Laste, recebemos seu chamado de alerta. Alguma coisa grave? — Pergunta atenciosamente Cristina.
— Minha filha, se você pode chamar de grave um pedindo de auxilio para a manutenção do meu único gerador elétrico a mais de duas semanas eu acredito que seja. Em mais uma semana não sei se estarei aqui para receber o técnico de manutenção.
— Me deixa dar uma olhada para ver se identifico o porquê dessa demora, 1 minuto senhor.
Nisso Cristina já sabia que o problema era do gerador elétrico. Quase não havia mais ninguém que entendesse daquela tecnologia. Estavam tentando o convencer para trocar o gerador por um mais atual, porém ele dizia que poderia interferir em seus experimentos. Vasculhou o histórico do único técnico que poderia prestar manutenção para o Dr. Laste, Peterson Tox. Percebeu que haviam lhe atribuído tarefas de prioridades maiores, como socorrer a filha do embaixador de Sirius que havia fundido o motor da nave esportiva numa nebulosa, e arrumar os geradores que esquentavam as cataratas do Iguaçu para o sheik Mustafa Pereira. Acionou o comunicador espacial e entrou em contato com Tox.
— Certo Tox, quanto tempo você consegue chegar ao Dr. Laste? — Pergunta Cristina já cansada de ouvir as desculpas de Tox.
— Se eu partir agora, em uns seis dias. — Respondeu Tox.
— Então parta ontem, pelo que o doutor me falou pode ser que ele não tenha esse tempo. — Desliga Cristina já preocupada. Nisso retorna o chamado com o Dr. Laste:
— Doutor, o técnico deve estar partindo agora.
— Minha filha, espero que essa não seja nossa última conversa, gostaria muito de receber o técnico e comemorar o concerto do gerador. — Ironiza o velho Dr. Laste.
— Com certeza doutor, ele deverá chegar a tempo. — Disse Cristina com um sorriso mais forçado que pode fingir.
A viagem estava ocorrendo conforme o planejado até Tox ser surpreendido por uma onda de meteoros que o forçou a fazer um desvio, lhe custando dois dias a mais na viagem.
— Bom dia doutor. Ainda bem que a esperança é a última que morre não é? Tive uns contratempos, mas aqui estou. Onde está o gerador? — Pergunta Tox na entrada do laboratório do Dr. Laste, como se este nem tivesse notado o atraso.
— Bom no meu caso tive que matar a esperança antes que ela me matasse.
— Mas como assim doutor?
— É como aquele antigo provérbio, é bom ter esperança, mas é ruim depender dela. Quando o gerador parou e percebi que em algumas horas iria morrer, decidi abrir a geringonça e fiquei surpreso ao verificar que seu funcionamento era muito parecido com um motor de um antigo veículo que possuía na minha juventude. Ai foi só apertar um parafuso aqui e outro ali e acho que ta funcionando melhor do que antes.
— Mas como, então o senhor já arrumou?
— Já meu filho, e já comemorei também, então se você puder levar essa rolha para a Cristina eu agradeço. Passe bem.
E assim Dr. Laste fechou a porta na cara de Tox e esse voltou sem entender muita coisa.
Dr. Laste havia cumprido seu papel na ciência moderna, e depois dos 120 anos decidiu se isolar numa das luas de Saturno para desenvolver suas teorias e experimentos longe da agitação da humanidade.
— Boa noite Dr. Laste, recebemos seu chamado de alerta. Alguma coisa grave? — Pergunta atenciosamente Cristina.
— Minha filha, se você pode chamar de grave um pedindo de auxilio para a manutenção do meu único gerador elétrico a mais de duas semanas eu acredito que seja. Em mais uma semana não sei se estarei aqui para receber o técnico de manutenção.
— Me deixa dar uma olhada para ver se identifico o porquê dessa demora, 1 minuto senhor.
Nisso Cristina já sabia que o problema era do gerador elétrico. Quase não havia mais ninguém que entendesse daquela tecnologia. Estavam tentando o convencer para trocar o gerador por um mais atual, porém ele dizia que poderia interferir em seus experimentos. Vasculhou o histórico do único técnico que poderia prestar manutenção para o Dr. Laste, Peterson Tox. Percebeu que haviam lhe atribuído tarefas de prioridades maiores, como socorrer a filha do embaixador de Sirius que havia fundido o motor da nave esportiva numa nebulosa, e arrumar os geradores que esquentavam as cataratas do Iguaçu para o sheik Mustafa Pereira. Acionou o comunicador espacial e entrou em contato com Tox.
— Certo Tox, quanto tempo você consegue chegar ao Dr. Laste? — Pergunta Cristina já cansada de ouvir as desculpas de Tox.
— Se eu partir agora, em uns seis dias. — Respondeu Tox.
— Então parta ontem, pelo que o doutor me falou pode ser que ele não tenha esse tempo. — Desliga Cristina já preocupada. Nisso retorna o chamado com o Dr. Laste:
— Doutor, o técnico deve estar partindo agora.
— Minha filha, espero que essa não seja nossa última conversa, gostaria muito de receber o técnico e comemorar o concerto do gerador. — Ironiza o velho Dr. Laste.
— Com certeza doutor, ele deverá chegar a tempo. — Disse Cristina com um sorriso mais forçado que pode fingir.
A viagem estava ocorrendo conforme o planejado até Tox ser surpreendido por uma onda de meteoros que o forçou a fazer um desvio, lhe custando dois dias a mais na viagem.
— Bom dia doutor. Ainda bem que a esperança é a última que morre não é? Tive uns contratempos, mas aqui estou. Onde está o gerador? — Pergunta Tox na entrada do laboratório do Dr. Laste, como se este nem tivesse notado o atraso.
— Bom no meu caso tive que matar a esperança antes que ela me matasse.
— Mas como assim doutor?
— É como aquele antigo provérbio, é bom ter esperança, mas é ruim depender dela. Quando o gerador parou e percebi que em algumas horas iria morrer, decidi abrir a geringonça e fiquei surpreso ao verificar que seu funcionamento era muito parecido com um motor de um antigo veículo que possuía na minha juventude. Ai foi só apertar um parafuso aqui e outro ali e acho que ta funcionando melhor do que antes.
— Mas como, então o senhor já arrumou?
— Já meu filho, e já comemorei também, então se você puder levar essa rolha para a Cristina eu agradeço. Passe bem.
E assim Dr. Laste fechou a porta na cara de Tox e esse voltou sem entender muita coisa.
Assinar:
Postagens (Atom)