terça-feira, 6 de novembro de 2012

Torre Celeste


Nasci em Marte em 2077 num setor agrícola da primeira cidade fundada pelos colonos.
Meu avô fez parte dos pioneiros que decidiram ir a marte sem garantia de retorno. Passou grande parte da vida trabalhando na “Maior torre de comunicação da década de 2050, com uma potência tão grande que até quem já morreu ficava online”, como gostava de lembrar.

Depois de 2070, com algum dinheiro já era possível retornar para a Terra. Meus pais juntaram o suficiente e em 2087 conseguimos ver pela primeira vez o planeta que era o berço da humanidade. Infelizmente meu avô não quis voltar preferindo permanecer no planeta que o adotara.

Com 20 anos, consegui permissão dos meus pais para passar um tempo com meu avô e assim retornei para meu planeta natal.

Ele já havia se aposentado, mas continuava a trabalhar na torre por depender da rotina como remédio para sanidade. Passava o dia sozinho interagindo com robôs. Dizia que alguns deles eram mais humanos do que seus superiores e por tanto não estava tecnicamente sozinho.

Logo que cheguei fizemos uma refeição onde conseguimos atualizar os sentimentos e relembrar de algumas histórias.

— E aquela sua máquina de fazer dinheiro, ainda existe? — Perguntei. Não que acreditasse, mas persistiu na minha memória quando uma vez, após 3 semanas trabalhando num projeto secreto no porão, ele surgiu com um saco de dinheiro de um suposto terreno que vendera.

— A alavanca quebrou e como não se encontra mais o material dela, não tem mais utilidade. — Respondeu como se realmente aquilo ainda fizesse sentido para alguém que já passou da infância.

Por ironia do destino alguns partem antes do combinado, e já havia terminado a refeição antes de ver seu monitor cardíaco perder a frequência.

Ainda em choque e frustrado por não ter tido tempo de perguntar onde estava a máquina, decidi usar suas credenciais para entrar na torre e tentar me comunicar com ele.

A segurança na torre era bem reforçada, mas um entregador de pizza sempre consegue passar por quase todas as portas. A última dependia do crachá para entrar na sala e eu precisava agir antes que a morte dele fosse notada e seus acessos removidos.

Quando loguei no sistema, lá estava ele com o status online.

— Vô, não tenho muito tempo, por favor, onde está a máquina?? — Perguntei desesperado.

— Também te amo. — Respondeu com ares de reprovação.

Os robôs auxiliares já haviam notado que não era meu avô que estava na sala e já haviam acionado a segurança.

Descendo as escadas para sair da torre me senti um mercenário por ter sido tão materialista num momento em que poderia ter mandado uma mensagem de amor. Mas logo depois percebi que meu avô tinha me ensinado a reencontrar a criança já esquecida dentro de mim. Certamente havia gravado uma resposta automática e me enganado novamente.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Depois do Inferno a Primavera


O jazz tocava suave quando entrei no restaurante de nome Pobre José. Era estranha a moda dos restaurantes caros darem nomes humildes, um humor burguês irresponsável. Em momentos que as opções somem, servia um das melhores cervejas naquele horário e naquele local, não que isso fosse bom, mas era algo a se respeitar, pois nada mais sem nexo do que servir felicidades geladas em horário de serviço escravo.
Depois de duas semanas implantando um sistema hospitalar num planeta em situações precárias, não via a hora de comemorar o retorno. Os seres que me deram apoio não gostavam muito de pessoas de fora e por isso me deparei com a situação em que queria confraternizar comigo mesmo. Pedi ao piloto para que me deixasse em um ambiente em que serviam prazeres em copos e sozinho me dirigi ao balcão.
Um planeta voltado à mineração, onde a riqueza se evaporava em luxúrias que o diamante podia comprar. Meu cérebro esquecia-se do corpo, mas só conseguia pensar em como não era bem vindo, pois qualquer um de fora do planeta só podia querer dinheiro.
Uma baleia que esqueceu Jonas desfrutava da sorte de ter escravos garimpando sua saciedade e bebia como se o amanhã a ressaca pudesse ser corrompida. Gritou uma vez sem que ninguém lhe desse atenção: “O que vem antes da primavera?”
Ninguém da atenção a pessoas nesse estado, mas de alguma maneira minha solidão cutucou minha ironia e soltei: “O inferno”. Essa pérola veio para a realidade depois de um ano no isolamento e voltar para meu lar era como se renascesse na primavera depois do inferno de ter que mercenariamente acalmar minha fome de tudo.
Como um estágio desbloqueado a figura me encarou de maneira que sabia que acertei a resposta, além disso, de bandeja pensei que famílias agradeciam por telas salvadas de um patético discurso indigesto. O sujeito estava acompanhado de sua ajudante de assuntos extraordinários, mas se encaminhou a mim como se encontrasse o último barman que ainda servia batata frita.
O engraçado é que um pouco antes do sujeito chegar, o barman disse como quem sussurrasse a carta do adversário: “Cuidado, esse é o senhor VivanBan, dependendo do que dizer você vira pedra preciosa ou lápide.
Sua expressão mudou e assim que sentou me perguntou:
- Então você conhece o projeto nova primavera?
- Claro. – Concordei como se quisesse saber mais daquela fantasia gratuita.
- Pague mais uma dose para o rapaz, e outra para mim. – Exigiu para o barman.
- Para a nova primavera! – Bradou exigindo um brinde.
Partiu sem dar explicação, mas só fui entender seu brinde quando li no jornal já no meu conforto que aquele planeta “desabitado” havia sido transformado em resort de luxo, promovendo a primavera da classe emergente.