Nasci em Marte em 2077 num setor agrícola da primeira cidade fundada pelos colonos.
Meu avô fez parte dos pioneiros que decidiram ir a marte sem garantia de retorno. Passou grande parte da vida trabalhando na “Maior torre de comunicação da década de 2050, com uma potência tão grande que até quem já morreu ficava online”, como gostava de lembrar.
Depois de 2070, com algum dinheiro já era possível retornar para a Terra. Meus pais juntaram o suficiente e em 2087 conseguimos ver pela primeira vez o planeta que era o berço da humanidade. Infelizmente meu avô não quis voltar preferindo permanecer no planeta que o adotara.
Com 20 anos, consegui permissão dos meus pais para passar um tempo com meu avô e assim retornei para meu planeta natal.
Ele já havia se aposentado, mas continuava a trabalhar na torre por depender da rotina como remédio para sanidade. Passava o dia sozinho interagindo com robôs. Dizia que alguns deles eram mais humanos do que seus superiores e por tanto não estava tecnicamente sozinho.
Logo que cheguei fizemos uma refeição onde conseguimos atualizar os sentimentos e relembrar de algumas histórias.
— E aquela sua máquina de fazer dinheiro, ainda existe? — Perguntei. Não que acreditasse, mas persistiu na minha memória quando uma vez, após 3 semanas trabalhando num projeto secreto no porão, ele surgiu com um saco de dinheiro de um suposto terreno que vendera.
— A alavanca quebrou e como não se encontra mais o material dela, não tem mais utilidade. — Respondeu como se realmente aquilo ainda fizesse sentido para alguém que já passou da infância.
Por ironia do destino alguns partem antes do combinado, e já havia terminado a refeição antes de ver seu monitor cardíaco perder a frequência.
Ainda em choque e frustrado por não ter tido tempo de perguntar onde estava a máquina, decidi usar suas credenciais para entrar na torre e tentar me comunicar com ele.
A segurança na torre era bem reforçada, mas um entregador de pizza sempre consegue passar por quase todas as portas. A última dependia do crachá para entrar na sala e eu precisava agir antes que a morte dele fosse notada e seus acessos removidos.
Quando loguei no sistema, lá estava ele com o status online.
— Vô, não tenho muito tempo, por favor, onde está a máquina?? — Perguntei desesperado.
— Também te amo. — Respondeu com ares de reprovação.
Os robôs auxiliares já haviam notado que não era meu avô que estava na sala e já haviam acionado a segurança.
Descendo as escadas para sair da torre me senti um mercenário por ter sido tão materialista num momento em que poderia ter mandado uma mensagem de amor. Mas logo depois percebi que meu avô tinha me ensinado a reencontrar a criança já esquecida dentro de mim. Certamente havia gravado uma resposta automática e me enganado novamente.