O jazz tocava suave quando entrei no restaurante de nome Pobre José. Era estranha a moda dos restaurantes caros darem nomes humildes, um humor burguês irresponsável. Em momentos que as opções somem, servia um das melhores cervejas naquele horário e naquele local, não que isso fosse bom, mas era algo a se respeitar, pois nada mais sem nexo do que servir felicidades geladas em horário de serviço escravo.
Depois de duas semanas implantando um sistema hospitalar num planeta em situações precárias, não via a hora de comemorar o retorno. Os seres que me deram apoio não gostavam muito de pessoas de fora e por isso me deparei com a situação em que queria confraternizar comigo mesmo. Pedi ao piloto para que me deixasse em um ambiente em que serviam prazeres em copos e sozinho me dirigi ao balcão.
Um planeta voltado à mineração, onde a riqueza se evaporava em luxúrias que o diamante podia comprar. Meu cérebro esquecia-se do corpo, mas só conseguia pensar em como não era bem vindo, pois qualquer um de fora do planeta só podia querer dinheiro.
Uma baleia que esqueceu Jonas desfrutava da sorte de ter escravos garimpando sua saciedade e bebia como se o amanhã a ressaca pudesse ser corrompida. Gritou uma vez sem que ninguém lhe desse atenção: “O que vem antes da primavera?”
Ninguém da atenção a pessoas nesse estado, mas de alguma maneira minha solidão cutucou minha ironia e soltei: “O inferno”. Essa pérola veio para a realidade depois de um ano no isolamento e voltar para meu lar era como se renascesse na primavera depois do inferno de ter que mercenariamente acalmar minha fome de tudo.
Como um estágio desbloqueado a figura me encarou de maneira que sabia que acertei a resposta, além disso, de bandeja pensei que famílias agradeciam por telas salvadas de um patético discurso indigesto. O sujeito estava acompanhado de sua ajudante de assuntos extraordinários, mas se encaminhou a mim como se encontrasse o último barman que ainda servia batata frita.
O engraçado é que um pouco antes do sujeito chegar, o barman disse como quem sussurrasse a carta do adversário: “Cuidado, esse é o senhor VivanBan, dependendo do que dizer você vira pedra preciosa ou lápide.
Sua expressão mudou e assim que sentou me perguntou:
- Então você conhece o projeto nova primavera?
- Claro. – Concordei como se quisesse saber mais daquela fantasia gratuita.
- Pague mais uma dose para o rapaz, e outra para mim. – Exigiu para o barman.
- Para a nova primavera! – Bradou exigindo um brinde.
Partiu sem dar explicação, mas só fui entender seu brinde quando li no jornal já no meu conforto que aquele planeta “desabitado” havia sido transformado em resort de luxo, promovendo a primavera da classe emergente.