O sol cedia seu lugar à lua num céu sem nuvens sobre a praia tropical. A calmaria se expressava nas gaivotas plainando contra a brisa, parecendo estacionadas num quadro. E era esse quadro que um senhor na melhor idade tentava reproduzir na varanda de sua casa.
Já fazia alguns anos que Cauã Apoena havia se aposentado e se retirado para uma pacata cidade litorânea no interior da Bahia. O merecido descanso havia sido conquistado após uma brilhante carreira no serviço de inteligência brasileira.
O comunicador holográfico emitiu um chamado e dona Jovina foi atender.
— Filho?! — Disse dona Jovina com a mão no peito, assustada com a presença virtual.
— Bom dia mãe. — Responde um aflito rosto mais jovem.
— Ainda não me acostumei com esse comunicador Junior. É como se você estivesse aqui. — Dona Jovina já mais calma abraçava o filho. — O que aconteceu? Você ta parecendo aflito.
— É esse novo trabalho mãe. Mal comecei a trabalhar na defesa nacional e vou ter que quebrar o isolamento de vocês com notícias nada boas. Precisava dos conselhos do mais velho, ele está ocupado?
— Muito. Quando ele começa a pintar na varanda fica imerso por horas no mundo das cores, formas e texturas. Junior, espero que saiba o que está fazendo. Você sabe que o médico disse que seu pai não deveria ser incomodado com quaisquer notícias. Ele anda tão calmo, a pressão dele anda tão boa, espero que o que tenha que falar não o faça piorar novamente.
— Não ligue para o que sua mãe diz Junior — disse seu Cauã entrando na sala — a que devo a honra dessa visita virtual? — disse abraçando o filho.
— Bom dia pai, sei que não deveria incomodá-lo com informações mundanas, mas a verdade é que preciso dos seus conselhos.
Nisso a chaleira começa a apitar e dona Jovina corre para apagar o fogo.
— Sua mãe vai fazer um chimarrão, nos acompanha? — disse seu Cauã sentando ao sofá.
Junior sorri. — Acho que vem bem a calhar. O clima aqui está muito tenso, e não estou conseguindo colocar os nervos para pensar. Vou pedir para minha secretária preparar um para mim.
— Jussara, por favor, prepare um chimarrão e traga aqui para sala. — disse Junior para o comunicador que estava sobre sua mesa de trabalho.
— Esse seu novo trabalho é bom mesmo. — disse seu Cauã espantado e orgulhoso ao mesmo tempo. — Quanto tempo meu filho, ia lhe perguntar como está seu trabalho, mas pela sua feição acho que a melhor pergunta seria: A guerra já foi declarada? Ou ainda, preciso construir um abrigo anti-bomba? — perguntou seu Cauã com a mesma naturalidade de quem questiona se precisa levar agasalho ao visitar uma cidade do sul.
— Como está pai? Espero que essa intuição não tenha nada haver com leituras escondidas de jornais. — respondeu Junior impressionado.
— Não filho, nada disso. Se você está na frente da defesa nacional, tendo até secretária que lhe serve chimarrão, e precisa dos meus conselhos é por que a situação é grave. E mesmo com recomendações médicas você decide me importunar, então só pode ser uma guerra. — disse seu Cauã já com os ritmos cardíacos em aceleração.
Dona Jovina volta à sala com o chimarrão e alguns biscoitos de maizena.
— Se acalme bem, deixe Junior falar. — Dona Jovina passa a cuia cheia para seu Cauã, junto com seu remédio para ansiedade.
— Saudades desses biscoitos mãe. — Disse Junior olhando para a bandeja.
— Aposto que sua secretária não consegue fazer uns desses. — Disse seu Cauã tecendo elogios em sinal de agradecimento à esposa.
— Acho que amanhã iremos a Salvador fazer alguns exames, ai aproveito e lhe mando alguns biscoitos pela transportadora instantânea. — Disse em tom amável dona Jovina.
— Bom adoraria recebê-los o mais rápido possível, mas acho que vou precisar pedir para que adiem essa ida á Salvador, pelo menos até as coisas voltarem ao normal. Em quanto isso posso me conformar com alguns biscoitos industriais. — Junior se senta e toma fôlego para começar a falar. — Como o Brasil tem sido nesse século 22 o centro econômico do mundo, ataques contra nossa soberania se tornaram freqüentes, mas ainda não havíamos nos deparados com esse tipo de situação. A guerra na verdade ainda não foi declarada, pois não sabemos contra quem estamos lidando. Na hora que alguém assumir ou descobrirmos quem está por trás, a guerra começará. O primeiro ataque ocorreu nessa segunda na estação de metrô de Porto Alegre, às 18h na estação central. O segundo e o terceiro seguiram o mesmo estilo e horário, mas em Curitiba e São Paulo, na terça e na quarta-feira respectivamente. Hoje teria ocorrido no Rio de Janeiro, mas por algum motivo o homem bomba não explodiu.
— Nossa senhora, — dona Jovina leva as mãos à boca e começa a se abanar como se o ar estivesse se exaurido do ambiente.
— Então não haverá guerra a declarar. — Seu Cauã deixa o chimarrão de lado e pega o remédio para ansiedade.
— Como assim? — Perguntaram em uni sono dona Jovina e Junior.
— Nenhum país atacaria civis sem reivindicar a autoria, e muito menos em prestações. Um poderoso grupo extremista poderia ser responsável, porém também faria os ataques ao mesmo tempo. Provavelmente Junior, seu alvo não é um ponto fixo, mas móvel. Eles desafiam nossa inteligência nos dando a data e o local do próximo ataque, e esse é o ponto fraco da estratégia, por isso devem ter anulado com algum ponto forte. Aposto que utiliza algum ônibus ou um veiculo grande o suficiente para levar todos seus integrantes e a estrutura necessária para os ataques. Se tivesse em algum lugar fixo poderia ser facilmente identificado bem como se utilizasse transportes públicos. Isso é obra de um psicopata, que está desafiando a defesa nacional a conseguir lhe capturar. Acredito que com esse integrante que não explodiu seja fácil descobrir o culpado não é?
Dona Jovina estava meio desconfiada dessa seqüência de raciocínio, mas preferiu não interferir.
Nisso Jussara, secretária de Junior entra na sala e deixa sobre a mesa o chimarrão e uma mídia de documentos sigilosos, saindo sem fazer qualquer barulho.
— Impressionante pai, realmente faz sentido o que diz. O problema é que esse homem bomba que capturamos ainda não nos esclareceu muita coisa. — Disse Junior enquanto colocava algumas fotos e vídeos na mesa de visualização compartilhada. — Veja, essa é a imagem do sujeito entrando na estação.
No vídeo aparece um homem de uns 40 anos de estatura mediana, terno preto, gravata vermelha, boina preta com uma pasta executiva comum caminhando para a estação central.
— Nessa pasta ele carrega os explosivos. — Alerta Junior.
O vídeo segue e de repente aparece um jovem maltrapilho com camisa típica de hacker abordando o executivo e fazendo algumas perguntas. O homem parece não entender o que o sujeito lhe pede e continua caminhando quase num movimento mecânico de robô. O jovem indignado tenta puxar a pasta, mas essa parece estar presa com uma algema a mão do executivo. Por fim, ainda sem conseguir provocar qualquer reação, ele pega a boina e some na multidão. O executivo fica inerte, até alguns agentes o abordarem e com o comunicador chamarem a segurança.
— Ele continua sem dizer uma palavra desde que o encontramos, não meche um músculo se quer, nem para comer ou beber. Desconfiamos que fosse um tipo de robô, porém os testes básicos mostraram que se trata de um ser humano. Tivemos que sedá-lo para fazermos mais testes. — Disse Junior querendo saber o que pensava seu pai.
— Realmente o andar dele no vídeo parece o de um robô controlado. Mas o mais estranho nessa história é um homem bomba de 40 anos. Se a ira pode levar um homem ao ponto de querer atacar um país com a própria vida, o tempo traz as possibilidades racionais. Por isso os jovens são as armas mais facilmente manipuláveis. Um homem de 40 anos já teria visto que existem outras formas mais inteligentes de mudar o mundo. Outro ponto interessante foi o fato dele ter “desligado” depois que sua boina foi roubada. Acredito que a boina escondia algum tipo de manipulação remota. Vocês encontraram mais alguma evidência? — Perguntou seu Cauã pegando mais um biscoito.
— Quando descobrimos a característica desse homem bomba, analisamos os vídeos de segurança das outras estações atingidas e verificamos que os outros três se vestiam da mesma forma e com o mesmo andar mecânico. Estou esperando o resultado dos DNAs que recolhemos nas três explosões. Acredito que em alguns instantes terei o resultado de algumas centenas de possíveis DNAs. — Disse Junior olhando para o computador e verificando a caixa de mensagens.
— Nossa, no meu tempo os testes levavam dias. — Disse seu Cauã estupefato com os avanços da tecnologia e imaginando como sua vida teria sido mais fácil se tivesse acesso a toda aquela parafernália.
— Bom hoje não podemos desperdiçar tanto tempo, pois se os crimes ocorrem numa escala de horas, assim deve ser a defesa. — Nisso Junior toca novamente o comunicador e pergunta para a secretária num tom de cobrança: — E ai Jussara, alguma novidade sobre os DNAs?
Nisso uma voz doce responde com toda a calma do mundo: — Já está sobre sua mesa, ao lado de onde deixei sua cuia.
Junior agradece meio envergonhado por não ter visto e passa os olhos nos relatórios.
— Filho, já que tem os dados em mãos, acho que deveria pedir para cruzar essas informações. — Sugeriu seu Cauã.
— Como assim? — Perguntou Junior já meio sem graça de ter que pedir explicações para seu pai.
— Se os testes mostraram que se trata de um ser humano, que provavelmente é manipulado a distância, e parece que saíram todos da mesma “forma”, existe a possibilidade de estarmos lidando com clones. O cruzamento dos DNAs tiraria essa dúvida. — Disse seu Cauã colocando água na cuia de Junior.
— Tem razão, vou providenciar isso agora. — Junior liga o comunicador e novamente Jussara aparece na tela: — Jussara, por favor, providencie um relatório buscando por DNAs que estavam nos três acidentes, junto com o DNA da branca de neve, digo homem bomba.
— Num instante senhor. — Jussara respondeu prontamente. Antes que os assuntos pudessem voltar na sala ela já havia enviado uma mensagem com os dados solicitados.
— Incrível. Quatro DNAs idênticos. — Junior jogou o relatório digital na mesa de compartilhamento para que seu pai visse.
— Bom nesse caso acredito que esse DNA seja o da pessoa que está por trás disso também. Pois ele não parece ter feito uma seleção genética atrás do melhor DNA para cumprir seus planos. Escolher o próprio DNA deve fazer parte do disfarce para fuga. Seria difícil distinguir quem é o verdadeiro dono da ira ou simplesmente é manipulado pela ira do dono. Acho que encontramos seu ponto forte, agora podemos nos aproveitar do ponto fraco. — Seu Cauã esticava as pernas e alongava as costas depois de se levantar da cadeira.
— Muito obrigado por abrir meus olhos pai, já sei o que precisamos fazer para conter essa ameaça. — Disse Junior em tom de agradecimento e já pensando nos próximos passos para reverter essa situação desfavorável.
— Eu é que agradeço filhão, é sempre bom para um pai saber que ainda pode ser útil para seu filho. Estou muito orgulhoso de você, e tenho certeza de que o país não poderia estar mais bem protegido do que com você no leme. — Disse seu Cauã já se despedindo. — Espero notícias animadoras amanhã.
— Meu filho, tome cuidado, — dona Jovina abraça forte o filho — quero te ver com uma cara melhor amanhã. Lembre de comer bem no café, vai dar tudo certo, você vai ver.
— Sem problemas mãe, amanhã eu chamo vocês novamente para contar boas notícias. — Junior abraçou os dois e se despediu desaparecendo da sala aos poucos à medida que a transparência aumentava.
O dia passou muito lento naquela sexta-feira. Seu Cauã exercitava a paciência com as pinceladas que custavam a chegar no volume necessário para criar as expressões e formas desejadas.
Dona Jovina estava aflita. O bolo de chocolate que preparava acabou queimando, e ela precisou refazer.
“Vou pedir um forno a laser programável de natal para o Junior. Não faz sentido ter uma velharia como essa só por que sua majestade gosta do sabor dos fornos antigos. Sou capaz de apostar que ele nem notaria a diferença, visto que raramente entra na cozinha.” Pensava dona Jovina. “E essa história agora de clones de boina. Tomara que estejam certos, pois se não vão achar que Júnior ta ficando louco e meu forno a laser programável vai ficar cada vez mais longe.” Dona Jovina se sentiu culpada com esse pensamento, pois as vidas de muitos brasileiros estavam em jogo e preferiu desparecer com as agulhas de nano tricô.
Já era noite quando o comunicador anunciou a chamada holográfica. Seu Cauã já estava meio sonolento, mas rapidamente estava na sala, seguido de dona Jovina.
— Boa noite pai e mãe — Junior apareceu, deu um grande suspiro e abraçou com alegria os pais. — Depois desse dia, acho que garanti meu cargo por alguns anos, e devo isso a vocês.
— Que maravilha meu filho — dona Jovina já estava com os olhos cheios de água, e foi amparada por seu Cauã.
— Conte logo meu filho, já não somos tão jovens para suportar tanto suspense. — Implorava seu Cauã forçando a voz para esconder a emoção.
— Decidimos apostar na sua teoria e monitoramos todos os veículos de grande porte que fizeram o trajeto dos dias anteriores e que estavam se deslocando para o suposto alvo de hoje. Chegamos a um número de 200 prováveis veículos. Quando chegou próxima à hora do ataque, monitoramos todos os sinais de trafego nas redondezas da estação principal e vimos as que se comunicavam com os 200 veículos. Isso resultou em dois veículos suspeitos e na segunda abordagem encontramos o ônibus que o senhor havia sugerido. Dentro dele havia dois clones e o responsável por todos esses ataques que aterrorizaram o Brasil por quase uma semana. Depois de desligar os equipamentos foi fácil encontrar o homem bomba do dia, que já estava quase chegando ao seu objetivo, travado como o outro de ontem.
— Parabéns meu filho, eu não teria feito melhor. Mas e como é que fez para distinguir qual deles eram clones e qual era a matriz? — Perguntou seu Cauã já mais controlado.
— Foi bom você ter colocado esse ponto ontem. Hoje quando os interceptamos, todos se diziam clone. Teve um que chegou quase a nos confundir, porém a diferença de idade embora fosse sutil, era significativo o bastante para determinarmos qual era o mais velho. Bastou uma observação nas atividades cerebrais para comprovarmos que aquele também era o que tinha mais informações e também a deformação cerebral característica de seres que não controlam a ira. Visto que essas características foram transpassadas para os clones via material genético e manipulação, ficou decidido que todos iriam pagar pelos crimes. Não poderíamos correr o risco de soltar os clones com potencial tão destrutivo. — Junior estava confiante.
— Já lhe passou a possibilidade deles serem todos clones? E a mente por trás disso estar à solta? — Perguntou Cauã como se o jovem estivesse se precipitando.
— Bom esse é um dos motivos pelo qual não posso deixar nenhum clone solto. O DNA deles está no banco de dados de todos os serviços públicos. Se essa seqüência genética aparecer em qualquer meio de transporte no mundo a gente saberá imediatamente. E claro, eles estão sendo todos monitorados pelos melhores dispositivos da ciência. Se eles pensarem em leite, a gente fica sabendo se eles tomavam direto na caixa, se é integral e qual a marca que eles tomaram. Por tanto se houver mais alguém envolvido, saberemos. — Disse Junior sabendo que a tecnologia era fruto do seu triunfo.
— É parece que os tempos estão evoluindo depressa demais para mentes como a nossa. — Disse seu Cauã atordoado com tantas informações.
— Estou orgulhosa de você meu filho. Bem que você podia vir nos visitar no natal, ai você já aproveita e traz um daqueles fornos de última geração para sua mãe, para assarmos um peru e comemorar essa sua conquista Junior. Seria ótimo reunir a família novamente. — Implorava dona Jovina.
— Claro mãe, e pode preparar lugar para mais uma convidada. Quero apresentar uma pessoa especial para vocês. — Disse Junior já imaginando a abordagem necessária para reduzir os danos dessa decisão.
— É isso ai filhão, estamos ansiosos por sua vinda. E chega de sustos né? — Disse seu Cauã já se despedindo.
— Com certeza pai, espero só importunar vocês com amenidades. Saúde e força para vocês. Estou esperando os biscoitos mãe.
— Pode deixar filho. Mande lembranças para a pessoa especial. — Disse dona Jovina beijando seu filho.
E Júnior havia desativado o comunicador quando recebeu um chamado de Jussara.
— Senhor foi informado que um hacker de apelido “Brasira” assumiu as autorias dos atentados, postando num blog de internet as informações confidenciais sobre clonagens e manipulação cerebral. Estamos rastreando a identidade digital, mas parece que ela foi adulterada.
— Aquele maltrapilho que roubou a boina, aplique reconhecimento facial aprimorado e compare com nosso banco de dados de jovens na casa dos 20 anos. — Disse Junior já lamentando o natal que perderia.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Dia das Bruxas em Asgard
Odin estava imerso em sua pesquisa que desenvolvia no melhor laboratório que o conhecimento acumulado do universo poderia conceber.
– Thor, esta pronto para mais uma intervenção? – Perguntou Odin olhando com ansiedade para aquele jovem que alterava o silêncio e a inércia ao entrar na sala.
– Sempre disposto e contente por poder lhe ser útil. – Respondeu Thor de prontidão olhando com curiosidade aquele dispositivo de observação que seu pai dava mais atenção do que jamais havia lhe dispensado.
– Lhe chamei, pois acho que descobri o motivo da Terra não ter explodido.
– Pela galáxia, os gigantes de gelo sumiram, e aquele planeta era para ter se esmigalhado. Como pode ele ter assumido essa órbita em torno do sol e girando em torno de si feito pião?
– Acreditamos que tenha sido por conta do núcleo de ferro. Mas somente se ele estivesse em estado líquido poderia ter absorvido toda a energia elétrica que você descarregou. Isso também explicaria o alinhamento que as partículas de seu núcleo tomaram, transformando ela num gerador magnético capaz de atrair a lua e assumir essa aceleração constante de rotações e ciclos.
– Impressionante. O universo esconde segredos que só se revelam diante da mais intensa energia.
– E não para por ai. Conseguimos aprimorar nosso mecanismo de observação a ponto de conseguir observar uma única rotação em torno do próprio eixo e ficamos impressionados com o que vimos. Lembra de Lif e Lifthrasir?
– Ainda não me perdoei por não ter encontrado eles a tempo. Mas se esperasse um pouco mais não sei se teria conseguido terminar com aquela raça de monstros e gigantes.
– Pois então, acreditamos que com a descarga, uma mutação aparentemente irreversível ocorreu com os dois. Eles passaram a se multiplicar em progressões jamais vistas e numa escala muito maior do que somem. Quando contamos a última vez havia 6.500.000.000 de Lifs e Lifthrasirs. E esse número cresce a cada rotação.
Thor procurou palavras, mas seu espanto foi tão grande que apenas se ateve a olhar diante daquelas imagens que registravam o que sua mente não podia entender.
– Isso foi previsto por alguns cientistas, mas nunca havia saído do campo teórico. – Disse Odin tentando reverter o impacto gerado pela descarga de novas informações.
– Você acha que deveríamos acabar com eles antes que se tornem uma praga incontrolável? – Pergunta Thor perplexo com a taxa de multiplicação da nova forma de vida.
– Essa é a primeira vez que podemos observar uma forma diferente de vida. Não acho que seja correto, e além do mais eles vivem pouco tempo, não são capazes de chegarem muito longe. O problema parece se concentrar na dimensão da anti-matéria. – Disse Odin revelando sua preocupação.
– Não sabia que havia dimensão de anti-matéria naquele plano.
– Também não sabíamos. Isso se revelou quando usamos as lentes certas.
– Então esse gerador magnético funciona também como um gerador de anti-matéria?
– De fato, o que vemos aqui é que a energia gerada também cresce em ritmos constantes e se tornam tão eternas quanto nós. Como se fossem nós na dimensão de anti-matéria.
– Existe alguma possibilidade dessa dimensão de anti-matéria encontrar a dimensão da matéria e se anularem?
– Na verdade elas se encontram num período exato do ciclo, onde ocorre a transmutação da energia. Essa barreira mais tênue permite fenômenos e manifestações nas duas dimensões.
– Uma passagem?
– Exato. O problema é que por algum motivo, algo está aprisionando toda essa energia de anti-matéria muito próximo a essa passagem. Pode ser que esse plano e toda essa frágil e promissora forma de vida desapareçam simplesmente por que os seres imortais da anti matéria insistem em se aglomerar num espaço que corresponde a 0,0001% de todo universo que poderiam ocupar. – Sentenciou Odin, tencionando o clima do recinto.
– E é ai que eu entro. – Exclamou Thor com orgulho. – Tem idéia do tipo de energia que vou me deparar?
– Provavelmente algum parasita de anti-matéria. Elimine o câncer e o crescimento deve voltar a ser constante e homogêneo.
– Me transporte para lá e eu resolvo isso da maneira mais rápida e eficiente possível. – Nisso pegou seu martelo mais potente do armário, seu cinto meijingard e foi em direção ao tele transporte.
– Temos aqui uma possibilidade única de conduzir nossos próximos sucessores para o topo das raças universais. Qualquer manipulação deve ser feita de maneira muito cuidadosa. Não deixe que saibam sobre a gente e só use o martelo se for necessário. – Alertou Odin.
– Serei o mais cuidadoso possível. – Disse Thor olhando para o martelo.
– A idéia é você ir para lá na região da periferia para se aproximar do foco sem ser percebido.
– Estou pronto.
– Boa sorte nessa jornada. – se despediu Odin fechando a cápsula de tele transporte e acionando o dispositivo.
E Thor parte para a dimensão de anti-matéria parando num ponto distante de toda a aglomeração. Demorou a se acostumar com a falta de densidade, mas a comodidade de se deslocar como raio de luz era algo fascinante. Já fazia um tempo que vagava silenciosamente sobre a vasta escuridão quando avistou uma luz alaranjada de longe.
Reduziu a velocidade e se aproximou com cautela.
Chegando mais próximo pode perceber que a luz vinha de uma espécie de cabana em forma de abóbora. Precisava obter informações e aquele poderia ser um bom começo.
– Scotch ou bourbon? – Perguntou o ser que se apresentava num elegante smoking preto.
– Desculpe, não saberia escolher. Estou à procura da passagem para a dimensão da matéria, saberia me indicar o caminho? – Perguntou Thor meio confuso e se sentindo fora de época com seus trajes nórdicos.
– Claro, a passagem se abre hoje e as comemorações já devem ter começado. Sempre passo do outro lado, onde as festas são mais divertidas. Não perderia o dia das bruxas por nada. Não quer mesmo beber alguma coisa?
Thor olhou por trás da figura, pode ver que a luz era formada por uma imensa quantidade de velas que pareciam queimar sem fim. Havia também uma imensa prateleira com uma variedade enorme de garrafas de diferentes cores e tamanhos.
– Bom acho que poderia provar algo. O que me sugere? – Perguntou Thor.
– Bourbon. – Respondeu Jack, já entrando na cabana e colocando duas pedras de gelo em cada copo.
Sentaram cada um em uma poltrona aconchegante.
– Qual seu nome? - perguntou Thor.
– As pessoas me chamam de Jack. Jack da lanterna.
– Interessante, mas pouco prático. Se quiser posso te criar uma luminária a base de eletricidade, seria mais leve e eficiente. – Nisso Thor se engasga com a queimação do álcool.
– Me desculpe, mas gosto do estilo. Além do mais manipular eletricidade poderia trazer problemas para esses lados. Aliás, e você? De onde veio e como se chama? – Sorriu Jack.
– Me chamam de Thor, vim de outra dimensão. – Se concentrando para não parecer alterado.
– Todos viemos, aqui é a dimensão da anti-matéria, só se chega aqui vindo da dimensão da matéria. Pergunto de que cidade veio da dimensão da matéria?
– Está certo, vim da dimensão da matéria, mas vivo num plano um pouco diferente desse ponto no universo. A velocidade e distância que separam nossos planos fazem com que eu veja seu mundo do mesmo jeito que vocês enxergam as minúsculas partículas de energia girando em torno de núcleos de carga polarizada. – Descarregou Thor como se não tivesse mais por onde fugir.
– Interessante, - os olhos de Jack se encheram de espanto - e qual seu propósito?
– Preciso fazer com que a concentração de anti matéria diminua na área da passagem. Esse sistema de duas dimensões que se transmutam é muito frágil, e se não diluirmos pela imensidão desse espaço, em pouco tempo as duas dimensões se aniquilaram e não sobrará nada. Deve existir algum tipo de parasita que está concentrando essa anti matéria e temos que devolver as rédeas do poder para a humanidade, pois acreditamos no potencial desse tipo de vida para o equilíbrio e crescimento do universo.
– Hum, e você espera fazer isso como? – Perguntou Jack recarregando seu copo.
– Primeiro preciso identificar o parasita, e para isso preciso ir para a passagem.
– Certo, a passagem é uma fronteira muito bem administrada por Deus e o Diabo, mas atualmente nenhum dos dois está muito acessível.
– Desculpe, mas quem são eles? Uma espécie de guardiões do portal?
– Hehehe – Riu Jack – essa foi boa. Na verdade eles estão mais para exploradores do portal, ou parasitas como você mesmo os chama.
– E como isso ocorreu? – Perguntou Thor recusando uma nova dose.
– Veja só. Um dia o primeiro homem morreu e conseqüentemente a primeira entidade aqui na dimensão da anti-matéria surgiu. Como primeira entidade, rapidamente percebeu que nessa imensidão ia ser difícil vagar sozinho, e assim manipulou os que vinham em seguida.
– Vendo por esse lado parece bem óbvio.
– Como primeiro líder, criou seu próprio reino, o reino dos céus. Ele acolhia a todos que vinham da passagem. Muito tempo se passou, e o reino dos céus já não era unanimidade. Começou com alguns que se recusavam a ficar aglomerados num ponto do universo e decidiram começar a migrar para a imensidão. Logo as histórias começaram a correr e o índice de captação de almas chegou a 70%, algo muito ruim para quem se considera única escolha. Uma de suas súditas mais fiel, começou a perceber nessa unanimidade uma falha e cansada de ter que fazer o serviço sujo de Deus decidiu abrir concorrência. Mas antes de sair, decidiu propor uma parceria e convenceu Deus de que essa era a única maneira de voltar aos 100% de almas que conseguiam nos bons tempos. No começo a divisão era muito clara, um fazia o bem e o outro mal, depois trocaram de nome e também o significado de bem ou mal. Com o tempo essa divisão foi ficando cada vez mais tênue e hoje em dia é difícil saber a diferença dos territórios do reino do céu e do inferno. Teve lugares que simplesmente trocaram a placa de um para outro e as almas continuaram se comportando como sempre se comportaram.
– Então esses são os lideres que terei que eliminar. Está claro que estão impedindo a propagação da energia e precisamos libertar essas almas. – Esbravejou Thor, se pondo em pé.
– Então acho que a gente tem alguma coisa em comum. Também não gosto deles, fui um dos poucos que enganei o Diabo, e por causa disso Deus também não me aceitou. – Disse Jack se levantando. – E graças a isso hoje conheço mais o universo do que esse monte de almas que insistem em vestir sempre o mesmo terno, branco ou vermelho. Como podem se acharem elegantes usando terno branco, ou vermelho? Onde está o estilo, a diversidade, as cores? Chega a cansar a vista. Mas não acho que seja tão simples eliminar Deus, e muito menos o Diabo. Eles são simplesmente os mais poderosos aqui do pedaço. Como pretende fazer isso?
– Primeiro preciso encontrar a fenda, com isso encontro eles.
– Posso te guiar, não perderia isso por nada nesse universo.
Nisso fechou a cabana e puseram se a vagar rumo à aglomeração.
Na medida em que se aproximavam, Thor notou que predominava na paisagem o branco e o vermelho. A radiação luminosa crescia constantemente.
Chegaram num vale, onde um enorme cânion se estendia pelo horizonte. Nas rochas que formavam a grande fenda, se via duas bolas muito iluminadas, uma branca e outra vermelha, cada uma em cada lado do cânion.
– Aqui estamos na passagem que liga as dimensões e naquilo que seria o portal de captação do reino do céu e do inferno. Deve se abrir dentro de instantes. – Anunciou Jack.
– Interessante, e Deus e o Diabo, estão aonde?
– São essas bolas de energia, antigamente elas falavam, davam ordens, mais hoje só os assessores mais próximos têm direito as propagações de sabedoria, e num evento tão discreto que alguns duvidam que realmente existam.
– Então você está dizendo que dois holofotes são capazes de controlar toda essa quantidade de anti-matéria? – Perguntou Thor estupefato.
– Na verdade elas são mais uma representação de poder. As decisões de menor granularidade ficam para os auxiliares. As mais relevantes ficam para os assessores mais próximos.
– Tudo isso está muito estranho, vamos encontrar algum desses assessores.
– Estamos com sorte, como hoje é o dia da festa com certeza os assessores estarão presentes.
– E vão comemorar o que exatamente?
– É o dia da captação, do arrebatamento, quando os seres mortais se transformam em imortais aqui na dimensão da anti-matéria. Ai tanto o reino do céu quanto o inferno se preparam para dividir e receber da melhor forma seus convidados já alienados.
– Como assim já alienados? – Perguntou Thor convencido de que aquela tinha sido a maior viajem de que já tinha participado.
– O reino do céu e o inferno só existem aqui na anti-matéria, mas seus terrenos já são negociados pelos agentes dos dois senhores na dimensão da matéria. Esses agentes se revelam para algumas pessoas estrategicamente escolhidas e os manipulam, criando líderes que funcionam como iscas para atrair seguidores. Ai quando eles passam para essa dimensão, suas escolhas já são direcionadas pela sugestão. – Explicou categoricamente Jack.
– Ta parecendo que esses senhores estão fazendo os mortais viverem como imortais e os imortais viverem como mortais somente para aumentar seu poderio. Isso precisa terminar.
– Não quero parecer pessimista, mas acho que tanto Deus quanto o Diabo não vão querer largar o osso tão cedo. E mesmo toda essa massa de almas inertes, eles talvez nem consigam conviver com a ausência de direcionamento. – Falou Jack, tentando mostrar a complexidade daquela missão surreal.
– Eles não terão outra escolha. E quando essas influências estiverem fora do jogo, novos líderes surgirão, mas serão lideranças menores, e essa divisão dos poderes chegara até ao ponto em que o poder voltara para cada unidade de consciência. Devolverei o controle do destino para o presente, e a culpa e ônus pelas decisões cairão em cima do agente causador, gerando consciência e aprendizado. Com o tempo um caminho se bifurcará em várias direções e a trilha para a conquista do universo em ambas as dimensões estarão abertas. – Exclamou Thor com ares de quem estava ansioso para começar a abrir as jaulas que prendiam aquelas consciências.
– Espero que saiba o que dizer para chegar até os figurões. Um dos assessores de Deus está logo atrás de você. – Alertou Jack espantado com a abordagem sorrateira do assessor.
Thor virou-se lentamente, já preparando seu martelo para um golpe singelo.
– Thor, sua majestade anseia pela sua presença. Por favor, me acompanhe.
Thor olhou para Jack.
– Uma das características dele é a onisciência. – Murmurou Jack.
Caminharam em silêncio por intermináveis corredores silenciosos até chegarem numa sala gigantesca, cujos limites estavam difíceis de enxergar com nitidez.
– Aguardem aqui, sua majestade aparecerá em breve. – E se retirou silenciosamente.
Thor já ia preparando o martelo quando Jack interveio.
– Espere, acho que seria mais interessante se você conseguisse uma maneira de juntar os dois. Como lhe falei, eles têm um acordo, se você conseguiu chegar a Deus com essa facilidade, não espere o mesmo para o Diabo.
– Quem garante que ele já não esperaria por isso também, afinal não mandei recado avisando minha chegada. Estou farto desse jogo de adivinhação.
Nisso, de um canto da sala que eles ainda não haviam prestado atenção, se ouviram passos. Eram duas pessoas que caminhavam lentamente. Uma mulher de vestido longo branco e um homem de terno vermelho.
Assim que a chegaram à sala foi Thor quem quebrou o silêncio.
– Lif e Lifthrasir? São vocês?
– Sim Thor, estamos aqui no outro lado, esquecidos pela eternidade. - Lif disse ajeitando o vestido.
– Pela galáxia! Achei que nunca mais os veria. Achei que vocês haviam morrido, mas Odin me disse que haviam sofrido uma mutação irreversível. Não esperava velos assim em tão bela forma.
– Nós esperamos muito tempo por você Thor, e assim que soubemos de sua presença tratamos de providenciar sua vinda para cá. – Lifthrasir olhou para Jack como se desvelasse seu poderio de manipulação sobre aquela nem tão inocente consciência que o desafiara outrora.
– Então vocês são Deus e o Diabo? – Thor estava atordoado.
– E quem mais esperava que fosse? Achou que apareceriam duas bolas gigantes de luz? Aquilo é só para não desgastar nossa imagem. Quem você achou que estaria mais familiarizado com a vida eterna? Além do mais, o que você chama de mutação irreversível, nós chamamos de família, não poderia jamais abandonar as crias que surgiram de minhas entranhas. - Lif esbravejava.
– Só que vocês estão podando o crescimento dessa nova forma de vida. Esse gerador de anti-matéria já poderia ter conquistado a galáxia, ou até mesmo o universo, mas continuam vivendo nesse frágil ambiente, escravizados e estagnados. Creio que apreenderam muito bem com os professores imortais. Talvez vocês tenham agido com boas intenções, mas sua proteção paternal, na verdade desprotege, deixando seus filhos livres da culpa que suas ações geram. E o mais triste é tirar o ônus da vitória. Não posso deixar que continuem agindo como imperadores, e que continuem passando valores que são frutos de uma sociedade em declínio que é a nossa dos imortais. O universo precisa de novos pensamentos e de uma renovação de energia. – disse Thor.
– Talvez fosse interessante colocar, que não gostaríamos de nos retirar, nem voltar a viver como simples imortais irrelevantes numa sociedade arrogante e cansada. Aqui somos entidades superiores, somos valorizados e desfrutamos de um poder que jamais teríamos em qualquer plano ou dimensão do universo. E como você falou isso é irreversível. – Exclamou Lifthrasir.
– Não posso deixar que a ganância pelo poder seja maior que o direito que essa raça possui de escrever sua própria história. Vou acabar com isso agora. – Thor levantou seu martelo, mas não provocou reação na sala, exceto por Jack que já estava atrás de um sofá.
– Saiba que essa sala foi preparada para que a eletricidade se dissipe sem causar danos, ou seja, seu martelo não poderá nos destruir.
Thor ficou desconcertado, deixando cair seu martelo.
– Bom, nesse caso terei que ser um pouco mais singelo.
Nisso Thor ativou o campo de força com seu cinto meijingard e englobou os quatro integrantes da sala, e com um sinal foram tele portados para sala de Odin.
– Mas... Como isso é possível? Lif e Lifthrasir? E você quem é? – perguntou Odin para Jack, olhando para a cápsula de tele transporte onde se espremiam os quatro.
– Abra a porta que eu explico. – disse Thor com dificuldades tentando tirar o pé de Jack que estava na sua cara.
Odin abriu e rapidamente todos estavam na sala de observação do laboratório.
– Bom agora vamos às notícias. Apresento-lhe os cânceres, ou ainda Deus e o Diabo. – Anunciou Thor.
– Lif e Lifthrasir! Não acredito que veria vocês novamente. Que bom que Thor os trouxe de volta, estou muito contente em velos novamente. Mas por que cânceres? – Perguntou Odin.
– Eram eles que estavam manipulando os humanos. Estavam tão cegos com o poder que tinham que não queriam sequer voltar. Chegaram ao abuso de dissipar toda eletricidade da anti-matéria com medo de que eu voltasse e usasse o martelo.
– Entendo Thor, mas não os julgue. Eles devem ter ficado alguns milhares de anos naquela dimensão, sem contato conosco. Isso já é um castigo maior do que qualquer falha que pudessem ter cometido. Além do mais, parece que você conseguiu reverter o câncer. Analisei as últimas rotações, e parece que já surgiu um sistema novo, onde os líderes são temporários e se alteram a fim de manter a aceleração do crescimento. Acredito que Lif e Lifthrasir serão essenciais para entendermos essa nova forma de vida, pois eles são as sementes, e os frutos não caem longe da árvore. Precisamos deles aqui conosco, nos guiando e auxiliando a manter em crescimento esse frágil sistema.
– Pode contar com a gente para o que for preciso Odin. – Disse Lifthrasir abraçando Lif. – Se existe algo que possamos fazer para reverter os danos causados por nossas influências, faremos com muito esmero.
– Por em quanto precisamos que tragam para nosso conhecimento essa cultura de crescimento que vocês presenciaram, mesmo que tenham sido de forma bastante tímida, como foi até a saída de vocês. Precisamos oxigenar nossos pensamentos com novas idéias, para sairmos da inércia estacionária que se encontra nossa sociedade.
– Acho que temos um excelente exemplar dessa cultura entre nós. – disse Thor olhando para Jack que ainda não tinha se revelado.
– Quer dizer que trouxe consigo uma forma de consciência originaria da Terra? – Odin olhou espantado para Jack.
– Na verdade foi uma coincidência, não poderia telo deixado lá naquela dimensão e correr o risco de estragar nosso anonimato. Ele é uma boa pessoa. – Disse Thor dando a deixa para Jack se apresentar.
– Meu nome é Jack e também posso ajudar naquilo que for necessário. Por um acaso vocês comemoram o dia das bruxas aqui nesse plano? – Perguntou Jack sentindo uma imensa falta da festa que havia perdido.
– Dia das bruxas? – Perguntou Odin curioso.
– É uma festa a fantasia para celebrar a imortalidade adquirida na mortalidade. – Achando que essa seria a explicação mais cosmopolita que poderia ter imaginado.
– Acho que seria um bom evento para você começar a organizar. Tenho certeza que todos gostariam de comemorar independentemente do nome que se de a festa. – disse Odin já feliz com a idéia de tirar a poeira do traje de festas.
– Maravilha Odin. Só mais uma coisa. Na pressa acabei esquecendo meu martelo, talvez tenha influenciado em alguma coisa. – Disse Thor como se fosse uma coisa sem importância.
- Hum. Isso explica por que eles começaram a dominar a eletricidade tão rapidamente. Em pouco tempo desenvolveram tecnologia que ampliam suas forças e sentidos e de acordo com os meus cálculos devem começar a colonizar sistemas próximos em torno de mais algumas rotações. Na área da anti-matéria, o ruído monocromático mudou para milhares de tonalidades de cores, a nuvem de anti matéria está se dissipando e espalhando as cores pelo universo afora.
Todos em Asgard comemoravam, mas Lif e Lifthrasir planejavam seu retorno.
– Thor, esta pronto para mais uma intervenção? – Perguntou Odin olhando com ansiedade para aquele jovem que alterava o silêncio e a inércia ao entrar na sala.
– Sempre disposto e contente por poder lhe ser útil. – Respondeu Thor de prontidão olhando com curiosidade aquele dispositivo de observação que seu pai dava mais atenção do que jamais havia lhe dispensado.
– Lhe chamei, pois acho que descobri o motivo da Terra não ter explodido.
– Pela galáxia, os gigantes de gelo sumiram, e aquele planeta era para ter se esmigalhado. Como pode ele ter assumido essa órbita em torno do sol e girando em torno de si feito pião?
– Acreditamos que tenha sido por conta do núcleo de ferro. Mas somente se ele estivesse em estado líquido poderia ter absorvido toda a energia elétrica que você descarregou. Isso também explicaria o alinhamento que as partículas de seu núcleo tomaram, transformando ela num gerador magnético capaz de atrair a lua e assumir essa aceleração constante de rotações e ciclos.
– Impressionante. O universo esconde segredos que só se revelam diante da mais intensa energia.
– E não para por ai. Conseguimos aprimorar nosso mecanismo de observação a ponto de conseguir observar uma única rotação em torno do próprio eixo e ficamos impressionados com o que vimos. Lembra de Lif e Lifthrasir?
– Ainda não me perdoei por não ter encontrado eles a tempo. Mas se esperasse um pouco mais não sei se teria conseguido terminar com aquela raça de monstros e gigantes.
– Pois então, acreditamos que com a descarga, uma mutação aparentemente irreversível ocorreu com os dois. Eles passaram a se multiplicar em progressões jamais vistas e numa escala muito maior do que somem. Quando contamos a última vez havia 6.500.000.000 de Lifs e Lifthrasirs. E esse número cresce a cada rotação.
Thor procurou palavras, mas seu espanto foi tão grande que apenas se ateve a olhar diante daquelas imagens que registravam o que sua mente não podia entender.
– Isso foi previsto por alguns cientistas, mas nunca havia saído do campo teórico. – Disse Odin tentando reverter o impacto gerado pela descarga de novas informações.
– Você acha que deveríamos acabar com eles antes que se tornem uma praga incontrolável? – Pergunta Thor perplexo com a taxa de multiplicação da nova forma de vida.
– Essa é a primeira vez que podemos observar uma forma diferente de vida. Não acho que seja correto, e além do mais eles vivem pouco tempo, não são capazes de chegarem muito longe. O problema parece se concentrar na dimensão da anti-matéria. – Disse Odin revelando sua preocupação.
– Não sabia que havia dimensão de anti-matéria naquele plano.
– Também não sabíamos. Isso se revelou quando usamos as lentes certas.
– Então esse gerador magnético funciona também como um gerador de anti-matéria?
– De fato, o que vemos aqui é que a energia gerada também cresce em ritmos constantes e se tornam tão eternas quanto nós. Como se fossem nós na dimensão de anti-matéria.
– Existe alguma possibilidade dessa dimensão de anti-matéria encontrar a dimensão da matéria e se anularem?
– Na verdade elas se encontram num período exato do ciclo, onde ocorre a transmutação da energia. Essa barreira mais tênue permite fenômenos e manifestações nas duas dimensões.
– Uma passagem?
– Exato. O problema é que por algum motivo, algo está aprisionando toda essa energia de anti-matéria muito próximo a essa passagem. Pode ser que esse plano e toda essa frágil e promissora forma de vida desapareçam simplesmente por que os seres imortais da anti matéria insistem em se aglomerar num espaço que corresponde a 0,0001% de todo universo que poderiam ocupar. – Sentenciou Odin, tencionando o clima do recinto.
– E é ai que eu entro. – Exclamou Thor com orgulho. – Tem idéia do tipo de energia que vou me deparar?
– Provavelmente algum parasita de anti-matéria. Elimine o câncer e o crescimento deve voltar a ser constante e homogêneo.
– Me transporte para lá e eu resolvo isso da maneira mais rápida e eficiente possível. – Nisso pegou seu martelo mais potente do armário, seu cinto meijingard e foi em direção ao tele transporte.
– Temos aqui uma possibilidade única de conduzir nossos próximos sucessores para o topo das raças universais. Qualquer manipulação deve ser feita de maneira muito cuidadosa. Não deixe que saibam sobre a gente e só use o martelo se for necessário. – Alertou Odin.
– Serei o mais cuidadoso possível. – Disse Thor olhando para o martelo.
– A idéia é você ir para lá na região da periferia para se aproximar do foco sem ser percebido.
– Estou pronto.
– Boa sorte nessa jornada. – se despediu Odin fechando a cápsula de tele transporte e acionando o dispositivo.
E Thor parte para a dimensão de anti-matéria parando num ponto distante de toda a aglomeração. Demorou a se acostumar com a falta de densidade, mas a comodidade de se deslocar como raio de luz era algo fascinante. Já fazia um tempo que vagava silenciosamente sobre a vasta escuridão quando avistou uma luz alaranjada de longe.
Reduziu a velocidade e se aproximou com cautela.
Chegando mais próximo pode perceber que a luz vinha de uma espécie de cabana em forma de abóbora. Precisava obter informações e aquele poderia ser um bom começo.
– Scotch ou bourbon? – Perguntou o ser que se apresentava num elegante smoking preto.
– Desculpe, não saberia escolher. Estou à procura da passagem para a dimensão da matéria, saberia me indicar o caminho? – Perguntou Thor meio confuso e se sentindo fora de época com seus trajes nórdicos.
– Claro, a passagem se abre hoje e as comemorações já devem ter começado. Sempre passo do outro lado, onde as festas são mais divertidas. Não perderia o dia das bruxas por nada. Não quer mesmo beber alguma coisa?
Thor olhou por trás da figura, pode ver que a luz era formada por uma imensa quantidade de velas que pareciam queimar sem fim. Havia também uma imensa prateleira com uma variedade enorme de garrafas de diferentes cores e tamanhos.
– Bom acho que poderia provar algo. O que me sugere? – Perguntou Thor.
– Bourbon. – Respondeu Jack, já entrando na cabana e colocando duas pedras de gelo em cada copo.
Sentaram cada um em uma poltrona aconchegante.
– Qual seu nome? - perguntou Thor.
– As pessoas me chamam de Jack. Jack da lanterna.
– Interessante, mas pouco prático. Se quiser posso te criar uma luminária a base de eletricidade, seria mais leve e eficiente. – Nisso Thor se engasga com a queimação do álcool.
– Me desculpe, mas gosto do estilo. Além do mais manipular eletricidade poderia trazer problemas para esses lados. Aliás, e você? De onde veio e como se chama? – Sorriu Jack.
– Me chamam de Thor, vim de outra dimensão. – Se concentrando para não parecer alterado.
– Todos viemos, aqui é a dimensão da anti-matéria, só se chega aqui vindo da dimensão da matéria. Pergunto de que cidade veio da dimensão da matéria?
– Está certo, vim da dimensão da matéria, mas vivo num plano um pouco diferente desse ponto no universo. A velocidade e distância que separam nossos planos fazem com que eu veja seu mundo do mesmo jeito que vocês enxergam as minúsculas partículas de energia girando em torno de núcleos de carga polarizada. – Descarregou Thor como se não tivesse mais por onde fugir.
– Interessante, - os olhos de Jack se encheram de espanto - e qual seu propósito?
– Preciso fazer com que a concentração de anti matéria diminua na área da passagem. Esse sistema de duas dimensões que se transmutam é muito frágil, e se não diluirmos pela imensidão desse espaço, em pouco tempo as duas dimensões se aniquilaram e não sobrará nada. Deve existir algum tipo de parasita que está concentrando essa anti matéria e temos que devolver as rédeas do poder para a humanidade, pois acreditamos no potencial desse tipo de vida para o equilíbrio e crescimento do universo.
– Hum, e você espera fazer isso como? – Perguntou Jack recarregando seu copo.
– Primeiro preciso identificar o parasita, e para isso preciso ir para a passagem.
– Certo, a passagem é uma fronteira muito bem administrada por Deus e o Diabo, mas atualmente nenhum dos dois está muito acessível.
– Desculpe, mas quem são eles? Uma espécie de guardiões do portal?
– Hehehe – Riu Jack – essa foi boa. Na verdade eles estão mais para exploradores do portal, ou parasitas como você mesmo os chama.
– E como isso ocorreu? – Perguntou Thor recusando uma nova dose.
– Veja só. Um dia o primeiro homem morreu e conseqüentemente a primeira entidade aqui na dimensão da anti-matéria surgiu. Como primeira entidade, rapidamente percebeu que nessa imensidão ia ser difícil vagar sozinho, e assim manipulou os que vinham em seguida.
– Vendo por esse lado parece bem óbvio.
– Como primeiro líder, criou seu próprio reino, o reino dos céus. Ele acolhia a todos que vinham da passagem. Muito tempo se passou, e o reino dos céus já não era unanimidade. Começou com alguns que se recusavam a ficar aglomerados num ponto do universo e decidiram começar a migrar para a imensidão. Logo as histórias começaram a correr e o índice de captação de almas chegou a 70%, algo muito ruim para quem se considera única escolha. Uma de suas súditas mais fiel, começou a perceber nessa unanimidade uma falha e cansada de ter que fazer o serviço sujo de Deus decidiu abrir concorrência. Mas antes de sair, decidiu propor uma parceria e convenceu Deus de que essa era a única maneira de voltar aos 100% de almas que conseguiam nos bons tempos. No começo a divisão era muito clara, um fazia o bem e o outro mal, depois trocaram de nome e também o significado de bem ou mal. Com o tempo essa divisão foi ficando cada vez mais tênue e hoje em dia é difícil saber a diferença dos territórios do reino do céu e do inferno. Teve lugares que simplesmente trocaram a placa de um para outro e as almas continuaram se comportando como sempre se comportaram.
– Então esses são os lideres que terei que eliminar. Está claro que estão impedindo a propagação da energia e precisamos libertar essas almas. – Esbravejou Thor, se pondo em pé.
– Então acho que a gente tem alguma coisa em comum. Também não gosto deles, fui um dos poucos que enganei o Diabo, e por causa disso Deus também não me aceitou. – Disse Jack se levantando. – E graças a isso hoje conheço mais o universo do que esse monte de almas que insistem em vestir sempre o mesmo terno, branco ou vermelho. Como podem se acharem elegantes usando terno branco, ou vermelho? Onde está o estilo, a diversidade, as cores? Chega a cansar a vista. Mas não acho que seja tão simples eliminar Deus, e muito menos o Diabo. Eles são simplesmente os mais poderosos aqui do pedaço. Como pretende fazer isso?
– Primeiro preciso encontrar a fenda, com isso encontro eles.
– Posso te guiar, não perderia isso por nada nesse universo.
Nisso fechou a cabana e puseram se a vagar rumo à aglomeração.
Na medida em que se aproximavam, Thor notou que predominava na paisagem o branco e o vermelho. A radiação luminosa crescia constantemente.
Chegaram num vale, onde um enorme cânion se estendia pelo horizonte. Nas rochas que formavam a grande fenda, se via duas bolas muito iluminadas, uma branca e outra vermelha, cada uma em cada lado do cânion.
– Aqui estamos na passagem que liga as dimensões e naquilo que seria o portal de captação do reino do céu e do inferno. Deve se abrir dentro de instantes. – Anunciou Jack.
– Interessante, e Deus e o Diabo, estão aonde?
– São essas bolas de energia, antigamente elas falavam, davam ordens, mais hoje só os assessores mais próximos têm direito as propagações de sabedoria, e num evento tão discreto que alguns duvidam que realmente existam.
– Então você está dizendo que dois holofotes são capazes de controlar toda essa quantidade de anti-matéria? – Perguntou Thor estupefato.
– Na verdade elas são mais uma representação de poder. As decisões de menor granularidade ficam para os auxiliares. As mais relevantes ficam para os assessores mais próximos.
– Tudo isso está muito estranho, vamos encontrar algum desses assessores.
– Estamos com sorte, como hoje é o dia da festa com certeza os assessores estarão presentes.
– E vão comemorar o que exatamente?
– É o dia da captação, do arrebatamento, quando os seres mortais se transformam em imortais aqui na dimensão da anti-matéria. Ai tanto o reino do céu quanto o inferno se preparam para dividir e receber da melhor forma seus convidados já alienados.
– Como assim já alienados? – Perguntou Thor convencido de que aquela tinha sido a maior viajem de que já tinha participado.
– O reino do céu e o inferno só existem aqui na anti-matéria, mas seus terrenos já são negociados pelos agentes dos dois senhores na dimensão da matéria. Esses agentes se revelam para algumas pessoas estrategicamente escolhidas e os manipulam, criando líderes que funcionam como iscas para atrair seguidores. Ai quando eles passam para essa dimensão, suas escolhas já são direcionadas pela sugestão. – Explicou categoricamente Jack.
– Ta parecendo que esses senhores estão fazendo os mortais viverem como imortais e os imortais viverem como mortais somente para aumentar seu poderio. Isso precisa terminar.
– Não quero parecer pessimista, mas acho que tanto Deus quanto o Diabo não vão querer largar o osso tão cedo. E mesmo toda essa massa de almas inertes, eles talvez nem consigam conviver com a ausência de direcionamento. – Falou Jack, tentando mostrar a complexidade daquela missão surreal.
– Eles não terão outra escolha. E quando essas influências estiverem fora do jogo, novos líderes surgirão, mas serão lideranças menores, e essa divisão dos poderes chegara até ao ponto em que o poder voltara para cada unidade de consciência. Devolverei o controle do destino para o presente, e a culpa e ônus pelas decisões cairão em cima do agente causador, gerando consciência e aprendizado. Com o tempo um caminho se bifurcará em várias direções e a trilha para a conquista do universo em ambas as dimensões estarão abertas. – Exclamou Thor com ares de quem estava ansioso para começar a abrir as jaulas que prendiam aquelas consciências.
– Espero que saiba o que dizer para chegar até os figurões. Um dos assessores de Deus está logo atrás de você. – Alertou Jack espantado com a abordagem sorrateira do assessor.
Thor virou-se lentamente, já preparando seu martelo para um golpe singelo.
– Thor, sua majestade anseia pela sua presença. Por favor, me acompanhe.
Thor olhou para Jack.
– Uma das características dele é a onisciência. – Murmurou Jack.
Caminharam em silêncio por intermináveis corredores silenciosos até chegarem numa sala gigantesca, cujos limites estavam difíceis de enxergar com nitidez.
– Aguardem aqui, sua majestade aparecerá em breve. – E se retirou silenciosamente.
Thor já ia preparando o martelo quando Jack interveio.
– Espere, acho que seria mais interessante se você conseguisse uma maneira de juntar os dois. Como lhe falei, eles têm um acordo, se você conseguiu chegar a Deus com essa facilidade, não espere o mesmo para o Diabo.
– Quem garante que ele já não esperaria por isso também, afinal não mandei recado avisando minha chegada. Estou farto desse jogo de adivinhação.
Nisso, de um canto da sala que eles ainda não haviam prestado atenção, se ouviram passos. Eram duas pessoas que caminhavam lentamente. Uma mulher de vestido longo branco e um homem de terno vermelho.
Assim que a chegaram à sala foi Thor quem quebrou o silêncio.
– Lif e Lifthrasir? São vocês?
– Sim Thor, estamos aqui no outro lado, esquecidos pela eternidade. - Lif disse ajeitando o vestido.
– Pela galáxia! Achei que nunca mais os veria. Achei que vocês haviam morrido, mas Odin me disse que haviam sofrido uma mutação irreversível. Não esperava velos assim em tão bela forma.
– Nós esperamos muito tempo por você Thor, e assim que soubemos de sua presença tratamos de providenciar sua vinda para cá. – Lifthrasir olhou para Jack como se desvelasse seu poderio de manipulação sobre aquela nem tão inocente consciência que o desafiara outrora.
– Então vocês são Deus e o Diabo? – Thor estava atordoado.
– E quem mais esperava que fosse? Achou que apareceriam duas bolas gigantes de luz? Aquilo é só para não desgastar nossa imagem. Quem você achou que estaria mais familiarizado com a vida eterna? Além do mais, o que você chama de mutação irreversível, nós chamamos de família, não poderia jamais abandonar as crias que surgiram de minhas entranhas. - Lif esbravejava.
– Só que vocês estão podando o crescimento dessa nova forma de vida. Esse gerador de anti-matéria já poderia ter conquistado a galáxia, ou até mesmo o universo, mas continuam vivendo nesse frágil ambiente, escravizados e estagnados. Creio que apreenderam muito bem com os professores imortais. Talvez vocês tenham agido com boas intenções, mas sua proteção paternal, na verdade desprotege, deixando seus filhos livres da culpa que suas ações geram. E o mais triste é tirar o ônus da vitória. Não posso deixar que continuem agindo como imperadores, e que continuem passando valores que são frutos de uma sociedade em declínio que é a nossa dos imortais. O universo precisa de novos pensamentos e de uma renovação de energia. – disse Thor.
– Talvez fosse interessante colocar, que não gostaríamos de nos retirar, nem voltar a viver como simples imortais irrelevantes numa sociedade arrogante e cansada. Aqui somos entidades superiores, somos valorizados e desfrutamos de um poder que jamais teríamos em qualquer plano ou dimensão do universo. E como você falou isso é irreversível. – Exclamou Lifthrasir.
– Não posso deixar que a ganância pelo poder seja maior que o direito que essa raça possui de escrever sua própria história. Vou acabar com isso agora. – Thor levantou seu martelo, mas não provocou reação na sala, exceto por Jack que já estava atrás de um sofá.
– Saiba que essa sala foi preparada para que a eletricidade se dissipe sem causar danos, ou seja, seu martelo não poderá nos destruir.
Thor ficou desconcertado, deixando cair seu martelo.
– Bom, nesse caso terei que ser um pouco mais singelo.
Nisso Thor ativou o campo de força com seu cinto meijingard e englobou os quatro integrantes da sala, e com um sinal foram tele portados para sala de Odin.
– Mas... Como isso é possível? Lif e Lifthrasir? E você quem é? – perguntou Odin para Jack, olhando para a cápsula de tele transporte onde se espremiam os quatro.
– Abra a porta que eu explico. – disse Thor com dificuldades tentando tirar o pé de Jack que estava na sua cara.
Odin abriu e rapidamente todos estavam na sala de observação do laboratório.
– Bom agora vamos às notícias. Apresento-lhe os cânceres, ou ainda Deus e o Diabo. – Anunciou Thor.
– Lif e Lifthrasir! Não acredito que veria vocês novamente. Que bom que Thor os trouxe de volta, estou muito contente em velos novamente. Mas por que cânceres? – Perguntou Odin.
– Eram eles que estavam manipulando os humanos. Estavam tão cegos com o poder que tinham que não queriam sequer voltar. Chegaram ao abuso de dissipar toda eletricidade da anti-matéria com medo de que eu voltasse e usasse o martelo.
– Entendo Thor, mas não os julgue. Eles devem ter ficado alguns milhares de anos naquela dimensão, sem contato conosco. Isso já é um castigo maior do que qualquer falha que pudessem ter cometido. Além do mais, parece que você conseguiu reverter o câncer. Analisei as últimas rotações, e parece que já surgiu um sistema novo, onde os líderes são temporários e se alteram a fim de manter a aceleração do crescimento. Acredito que Lif e Lifthrasir serão essenciais para entendermos essa nova forma de vida, pois eles são as sementes, e os frutos não caem longe da árvore. Precisamos deles aqui conosco, nos guiando e auxiliando a manter em crescimento esse frágil sistema.
– Pode contar com a gente para o que for preciso Odin. – Disse Lifthrasir abraçando Lif. – Se existe algo que possamos fazer para reverter os danos causados por nossas influências, faremos com muito esmero.
– Por em quanto precisamos que tragam para nosso conhecimento essa cultura de crescimento que vocês presenciaram, mesmo que tenham sido de forma bastante tímida, como foi até a saída de vocês. Precisamos oxigenar nossos pensamentos com novas idéias, para sairmos da inércia estacionária que se encontra nossa sociedade.
– Acho que temos um excelente exemplar dessa cultura entre nós. – disse Thor olhando para Jack que ainda não tinha se revelado.
– Quer dizer que trouxe consigo uma forma de consciência originaria da Terra? – Odin olhou espantado para Jack.
– Na verdade foi uma coincidência, não poderia telo deixado lá naquela dimensão e correr o risco de estragar nosso anonimato. Ele é uma boa pessoa. – Disse Thor dando a deixa para Jack se apresentar.
– Meu nome é Jack e também posso ajudar naquilo que for necessário. Por um acaso vocês comemoram o dia das bruxas aqui nesse plano? – Perguntou Jack sentindo uma imensa falta da festa que havia perdido.
– Dia das bruxas? – Perguntou Odin curioso.
– É uma festa a fantasia para celebrar a imortalidade adquirida na mortalidade. – Achando que essa seria a explicação mais cosmopolita que poderia ter imaginado.
– Acho que seria um bom evento para você começar a organizar. Tenho certeza que todos gostariam de comemorar independentemente do nome que se de a festa. – disse Odin já feliz com a idéia de tirar a poeira do traje de festas.
– Maravilha Odin. Só mais uma coisa. Na pressa acabei esquecendo meu martelo, talvez tenha influenciado em alguma coisa. – Disse Thor como se fosse uma coisa sem importância.
- Hum. Isso explica por que eles começaram a dominar a eletricidade tão rapidamente. Em pouco tempo desenvolveram tecnologia que ampliam suas forças e sentidos e de acordo com os meus cálculos devem começar a colonizar sistemas próximos em torno de mais algumas rotações. Na área da anti-matéria, o ruído monocromático mudou para milhares de tonalidades de cores, a nuvem de anti matéria está se dissipando e espalhando as cores pelo universo afora.
Todos em Asgard comemoravam, mas Lif e Lifthrasir planejavam seu retorno.
UM ANO
Onze meses se passaram, e apenas um restava para o tão esperado momento. Por mais que se esforçasse não conseguia esquecer, e até gostava da aproximação, pois assim aquela ansiedade finalmente iria embora. Começou a relembrar de como tudo aquilo havia começado.
Nunca acreditou em fantasmas ou espíritos, até que um dia seu avô, que já havia falecido há mais de 10 anos começou a mostrar seus poderes do além. Primeiro foram simples aparições em sonhos, mas se assustou quando começou a escutar algumas frases soltas, logo no primeiro minuto depois de acordar. Achava que aquilo deveria ser fruto de alguns longos períodos de solidão junto com as saudades que sentia da infância e parentes.
Tinha dificuldade para levantar, e por vezes a voz dizia “hora de acordar”. Aquilo o deixava pensativo por alguns instantes mas não levava muito a sério. Tudo mudou, quando escutou no pé do ouvido, a frase tão clara que as palavras ecoaram para muito além daqueles dias e em cada célula do seu corpo. “Você tem apenas mais um ano nessa vida”.
Aquelas palavras surgiram como um aviso, uma profecia, e gerou um enorme furacão nos seus pensamentos. Lembrava da sua infância, dos irmãos e primos que já fazia anos que não via, dos pais que já estavam envelhecendo, dos amores perdidos e dos que não teria tempo de experimentar.
A morte lhe batia na porta, mas não se sentia doente a não ser pela saúde mental, que já desconfiava não estar como sempre tinha sido. Pensava em como iria morrer, provavelmente seria um acidente, pois ainda era novo para morrer de qualquer complicação decorrente da idade. Morrer em acidente não era algo que lhe agradava muito, mas de repente seria uma maneira rápida. E se fosse de um tiro, vindo de um assaltante desequilibrado, ou mesmo de um fuzil a alguns quilômetros de distância, onde a bala perdida encontraria seu lugar no destino?
Lembrou de um parente distante, que havia morrido repentinamente, exatamente 2 horas depois de sair do bar que sempre costumava ir. A autópsia mostrou que a causa da morte era um vírus que estava no repolho em conserva que ele havia consumido no bar. Imaginou se naquele dia, ele que já devia ter o fígado corroído pela cirrose, tivesse tido a ideia de parar de beber. Ai para não perder o costume, foi encontrar os amigos, mas decidiu tomar um refrigerante e comer um daqueles repolhos que sempre comia.
As possibilidades e as formas de morrer eram tão vastas que passado o susto inicial, e para não desenvolver uma síndrome do pânico, seus pensamentos se voltaram para a metade do copo que estava cheia. Aquele medo de morrer tinha que ter algum motivo, e essa curiosidade começou a ficar maior do que o próprio medo em si.
Já tinha tido muitas experiências para um adulto de sua idade, mas ainda faltava algo que ele não podia morrer sem antes ter tentado. Começou fazendo uma lista das coisas que queria realizar antes de morrer, das mais simples até aquelas que sempre julgava impossíveis.
Aquela lista tinha algo de triste, mas era como um grito de seu subconsciente para que iniciasse seu caminho em direção aos sonhos.
A primeira medida foi largar o emprego de piloto de carga interestelar. Aqueles longos períodos de solidão com certeza não faziam mais sentido. De que adiantaria morrer sozinho a anos-luz de distância do seu planeta natal? Assim que conseguiu, voltou a morar próximo de seus parentes.
Um sonho que sempre alimentava, era o de compor música. Nunca teve coragem para tentar, mas nem precisava mais da coragem. Tinha que fazer alguma coisa, por mais tola que fosse, pois era uma maneira de prolongar a sua influência entre seus semelhantes.
Percebeu que tinha conhecimento e força suficiente para mudar o mundo, talvez não mais o seu, mas o do resto da humanidade.
Demorou alguns meses para conseguir gravar as 10 faixas que compôs com muito esforço. Naquele dia era a primeira vez que escutava uma de suas músicas na rádio. Já fazia um tempo que ela vinha sendo escutada pela internet, mas chegar a um meio de comunicação de massa, no seu planeta, era algo que nem em sonho conseguia imaginar.
Por um instante percebeu que tinha conquistado todos os itens da lista. Se sentiu satisfeito, e finalmente aquele medo de morrer já não lhe aplacava. Até mesmo as frases soltas lhe traziam conforto e vivia cada dia como se fosse o último. Aquela atitude já lhe trazia frutos, e tinha certeza que estava vivendo intensamente todos os dias que lhe restava.
Agora faltava 1 mês para a profecia se concretizar, e já fazia algum tempo que não escutava as frases de seu avô. Tinha comemorado seu aniversário e como todas as festas daquele período essa também tinha um ar de despedida. Assim que acabou a festa foi para casa e pegou rapidamente no sono.
Uma outra festa havia começado, e nela estavam todas as pessoas que tinha conhecido, mas que já haviam morrido a algum tempo. Aquele seu parente lhe cumprimentou, estava pegando na bandeja uma porção de repolho em conserva quando sorriu e acenou com a mão. Seus avós carregavam um imenso bolo. Percebera que ele era o aniversariante, e decidiu curtir o momento que aquela experiência lhe proporcionara. Estava tão confortável junto de seus avós que nem percebeu quando começou a acordar. Lembrou apenas da última frase que escutou saindo entre tragadas de cachimbo “estaremos aqui lhe esperando para sempre…”
Aquele mês passou rapidamente, e na noite que antecedeu o grande dia saiu para beber com os amigos. Na volta para casa, seu carro enguiçou numa área sem cobertura e precisou esperar algum outro veículo que estivesse passando pela estrada e lhe desse carona até o posto de controle mais próximo.
Não demorou muito e começou a avistar uma luz sob a neblina. Fez sinal para o carro parar e ao entrar ficou espantado, se tratava do seu avô, dirigindo o mesmo carro que tinha na sua época. Conversaram amenidades e como o trajeto ia ser longo, seu avô ligou o rádio, e para sua surpresa a música que tinha composto estava tocando bem na hora. Seu avô elogiou a música e disse que o fim era o recomeço, e que uma nova vida se iniciaria em poucos instantes.
Havia fechado os olhos antes de um clarão lhe cegar. Achou que aquele era o momento onde começaria a ir para o outro lado. Já reconhecia as estrelas quando uma centelha de sentido lhe apresentou a imagem de fios de luz sobre o veículo estraçalhado num poste.
Exatamente um ano se passou desde o acidente, quando estava indo visitar seus pais na terra. Não havia ninguém na sala quando abriu os olhos e saiu do coma. Reconheceu um centro de tratamento intensivo e apertou o botão para chamar a enfermeira.
Depois dela explicar a sequência dos fatos, pediu uma caneta e um papel, e começou a rabiscar o que seria sua primeira composição.
Nunca acreditou em fantasmas ou espíritos, até que um dia seu avô, que já havia falecido há mais de 10 anos começou a mostrar seus poderes do além. Primeiro foram simples aparições em sonhos, mas se assustou quando começou a escutar algumas frases soltas, logo no primeiro minuto depois de acordar. Achava que aquilo deveria ser fruto de alguns longos períodos de solidão junto com as saudades que sentia da infância e parentes.
Tinha dificuldade para levantar, e por vezes a voz dizia “hora de acordar”. Aquilo o deixava pensativo por alguns instantes mas não levava muito a sério. Tudo mudou, quando escutou no pé do ouvido, a frase tão clara que as palavras ecoaram para muito além daqueles dias e em cada célula do seu corpo. “Você tem apenas mais um ano nessa vida”.
Aquelas palavras surgiram como um aviso, uma profecia, e gerou um enorme furacão nos seus pensamentos. Lembrava da sua infância, dos irmãos e primos que já fazia anos que não via, dos pais que já estavam envelhecendo, dos amores perdidos e dos que não teria tempo de experimentar.
A morte lhe batia na porta, mas não se sentia doente a não ser pela saúde mental, que já desconfiava não estar como sempre tinha sido. Pensava em como iria morrer, provavelmente seria um acidente, pois ainda era novo para morrer de qualquer complicação decorrente da idade. Morrer em acidente não era algo que lhe agradava muito, mas de repente seria uma maneira rápida. E se fosse de um tiro, vindo de um assaltante desequilibrado, ou mesmo de um fuzil a alguns quilômetros de distância, onde a bala perdida encontraria seu lugar no destino?
Lembrou de um parente distante, que havia morrido repentinamente, exatamente 2 horas depois de sair do bar que sempre costumava ir. A autópsia mostrou que a causa da morte era um vírus que estava no repolho em conserva que ele havia consumido no bar. Imaginou se naquele dia, ele que já devia ter o fígado corroído pela cirrose, tivesse tido a ideia de parar de beber. Ai para não perder o costume, foi encontrar os amigos, mas decidiu tomar um refrigerante e comer um daqueles repolhos que sempre comia.
As possibilidades e as formas de morrer eram tão vastas que passado o susto inicial, e para não desenvolver uma síndrome do pânico, seus pensamentos se voltaram para a metade do copo que estava cheia. Aquele medo de morrer tinha que ter algum motivo, e essa curiosidade começou a ficar maior do que o próprio medo em si.
Já tinha tido muitas experiências para um adulto de sua idade, mas ainda faltava algo que ele não podia morrer sem antes ter tentado. Começou fazendo uma lista das coisas que queria realizar antes de morrer, das mais simples até aquelas que sempre julgava impossíveis.
Aquela lista tinha algo de triste, mas era como um grito de seu subconsciente para que iniciasse seu caminho em direção aos sonhos.
A primeira medida foi largar o emprego de piloto de carga interestelar. Aqueles longos períodos de solidão com certeza não faziam mais sentido. De que adiantaria morrer sozinho a anos-luz de distância do seu planeta natal? Assim que conseguiu, voltou a morar próximo de seus parentes.
Um sonho que sempre alimentava, era o de compor música. Nunca teve coragem para tentar, mas nem precisava mais da coragem. Tinha que fazer alguma coisa, por mais tola que fosse, pois era uma maneira de prolongar a sua influência entre seus semelhantes.
Percebeu que tinha conhecimento e força suficiente para mudar o mundo, talvez não mais o seu, mas o do resto da humanidade.
Demorou alguns meses para conseguir gravar as 10 faixas que compôs com muito esforço. Naquele dia era a primeira vez que escutava uma de suas músicas na rádio. Já fazia um tempo que ela vinha sendo escutada pela internet, mas chegar a um meio de comunicação de massa, no seu planeta, era algo que nem em sonho conseguia imaginar.
Por um instante percebeu que tinha conquistado todos os itens da lista. Se sentiu satisfeito, e finalmente aquele medo de morrer já não lhe aplacava. Até mesmo as frases soltas lhe traziam conforto e vivia cada dia como se fosse o último. Aquela atitude já lhe trazia frutos, e tinha certeza que estava vivendo intensamente todos os dias que lhe restava.
Agora faltava 1 mês para a profecia se concretizar, e já fazia algum tempo que não escutava as frases de seu avô. Tinha comemorado seu aniversário e como todas as festas daquele período essa também tinha um ar de despedida. Assim que acabou a festa foi para casa e pegou rapidamente no sono.
Uma outra festa havia começado, e nela estavam todas as pessoas que tinha conhecido, mas que já haviam morrido a algum tempo. Aquele seu parente lhe cumprimentou, estava pegando na bandeja uma porção de repolho em conserva quando sorriu e acenou com a mão. Seus avós carregavam um imenso bolo. Percebera que ele era o aniversariante, e decidiu curtir o momento que aquela experiência lhe proporcionara. Estava tão confortável junto de seus avós que nem percebeu quando começou a acordar. Lembrou apenas da última frase que escutou saindo entre tragadas de cachimbo “estaremos aqui lhe esperando para sempre…”
Aquele mês passou rapidamente, e na noite que antecedeu o grande dia saiu para beber com os amigos. Na volta para casa, seu carro enguiçou numa área sem cobertura e precisou esperar algum outro veículo que estivesse passando pela estrada e lhe desse carona até o posto de controle mais próximo.
Não demorou muito e começou a avistar uma luz sob a neblina. Fez sinal para o carro parar e ao entrar ficou espantado, se tratava do seu avô, dirigindo o mesmo carro que tinha na sua época. Conversaram amenidades e como o trajeto ia ser longo, seu avô ligou o rádio, e para sua surpresa a música que tinha composto estava tocando bem na hora. Seu avô elogiou a música e disse que o fim era o recomeço, e que uma nova vida se iniciaria em poucos instantes.
Havia fechado os olhos antes de um clarão lhe cegar. Achou que aquele era o momento onde começaria a ir para o outro lado. Já reconhecia as estrelas quando uma centelha de sentido lhe apresentou a imagem de fios de luz sobre o veículo estraçalhado num poste.
Exatamente um ano se passou desde o acidente, quando estava indo visitar seus pais na terra. Não havia ninguém na sala quando abriu os olhos e saiu do coma. Reconheceu um centro de tratamento intensivo e apertou o botão para chamar a enfermeira.
Depois dela explicar a sequência dos fatos, pediu uma caneta e um papel, e começou a rabiscar o que seria sua primeira composição.
POSSIBILIDADES QUÂNTICAS
Quantic era o codinome de um jovem hacker, e nesse dia tinha seu homônimo entrando em fase de testes nas dependências do exército. As possibilidades do processamento quântico eram tão vastas e desconhecidas quanto o futuro desse jovem que tinha nascido logo no início da maior explosão tecnológica que a humanidade já havia presenciado.
Era seu aniversário, fazia 28 anos. Acordou cedo e como de costume abriu sua caixa de email. Achou estranho quando seu próprio endereço estava no campo de um dos remetentes. Ao abrir, percebeu se tratar de uma carta um tanto quanto enigmática, pois continha os números da loteria que iria correr naquele dia. Abaixo uma descrição de como seria o mundo após uma guerra nuclear e a localização virtual da máquina que seria responsável pelo início do conflito.
Analisou o endereço da máquina, e identificou pelo prefixo que se tratava de uma rede de uso restrito, militar. Seria difícil invadir uma dessas redes, se não impossível. Decidiu fazer a aposta na loteria para verificar se aquilo tudo não era fruto de uma armadilha, arquitetada para roubar dados de sua máquina.
Ficou muito feliz quando ganhou sozinho o prêmio acumulado. Sem perder muito tempo, foi logo adquirindo empresas e com uma habilidade fora do comum, guiou a civilização para um novo patamar tecnológico.
Vivia numa ilha isolada quando soube pelo noticiário que todos os centros urbanos haviam sido atingidos por ogivas nucleares. Foi só ai que se lembrou da segunda parte do email e sentiu profunda dor por não ter feito nada para impedir aquele cenário.
Decidido a reverter à situação, vasculha os arquivos da empresa a procura da localização dos servidores quânticos que sua empresa havia produzido. Encontrou a única máquina que ainda funcionava, e ficou atordoado quando percebeu que o endereço virtual era o mesmo que o email havia indicado tempos atrás.
Conseguiu acessar a máquina e verificando as mensagens de alerta, percebeu que as ogivas foram lançadas por um ataque hacker, mas o rastreador não foi capaz de identificar a origem.
Escreve um email, contando a realidade que estava vivenciando e pedindo auxilio para evitar essa tragédia. Titubeou entre os números da loteria. Depois de refletir, percebeu que embora tivesse feito a humanidade progredir, aquele dinheiro lhe roubou o altruísmo e decidiu ocultar os números.
Calculou a velocidade, ajustou o acelerador de partículas para receber um conjunto de fótons, e enviou a mensagem eletrônica para seu próprio email. Os bits de informação saem do processador quântico direto para o acelerador, que manda os fótons a mais de 500 vezes a velocidade da luz em direção ao local onde o satélite roteador da internet interplanetária estaria no dia do seu aniversário de 28 anos.Acordou cedo, e ao abrir a caixa de email, se deparou com profecias de que o mundo iria acabar. Achou estranho ter seu próprio email como remetente, mas considerou que fosse alguma forma de roubar dados e continuou sua vida como se nada tivesse acontecido.
Era seu aniversário, fazia 28 anos. Acordou cedo e como de costume abriu sua caixa de email. Achou estranho quando seu próprio endereço estava no campo de um dos remetentes. Ao abrir, percebeu se tratar de uma carta um tanto quanto enigmática, pois continha os números da loteria que iria correr naquele dia. Abaixo uma descrição de como seria o mundo após uma guerra nuclear e a localização virtual da máquina que seria responsável pelo início do conflito.
Analisou o endereço da máquina, e identificou pelo prefixo que se tratava de uma rede de uso restrito, militar. Seria difícil invadir uma dessas redes, se não impossível. Decidiu fazer a aposta na loteria para verificar se aquilo tudo não era fruto de uma armadilha, arquitetada para roubar dados de sua máquina.
Ficou muito feliz quando ganhou sozinho o prêmio acumulado. Sem perder muito tempo, foi logo adquirindo empresas e com uma habilidade fora do comum, guiou a civilização para um novo patamar tecnológico.
Vivia numa ilha isolada quando soube pelo noticiário que todos os centros urbanos haviam sido atingidos por ogivas nucleares. Foi só ai que se lembrou da segunda parte do email e sentiu profunda dor por não ter feito nada para impedir aquele cenário.
Decidido a reverter à situação, vasculha os arquivos da empresa a procura da localização dos servidores quânticos que sua empresa havia produzido. Encontrou a única máquina que ainda funcionava, e ficou atordoado quando percebeu que o endereço virtual era o mesmo que o email havia indicado tempos atrás.
Conseguiu acessar a máquina e verificando as mensagens de alerta, percebeu que as ogivas foram lançadas por um ataque hacker, mas o rastreador não foi capaz de identificar a origem.
Escreve um email, contando a realidade que estava vivenciando e pedindo auxilio para evitar essa tragédia. Titubeou entre os números da loteria. Depois de refletir, percebeu que embora tivesse feito a humanidade progredir, aquele dinheiro lhe roubou o altruísmo e decidiu ocultar os números.
Calculou a velocidade, ajustou o acelerador de partículas para receber um conjunto de fótons, e enviou a mensagem eletrônica para seu próprio email. Os bits de informação saem do processador quântico direto para o acelerador, que manda os fótons a mais de 500 vezes a velocidade da luz em direção ao local onde o satélite roteador da internet interplanetária estaria no dia do seu aniversário de 28 anos.Acordou cedo, e ao abrir a caixa de email, se deparou com profecias de que o mundo iria acabar. Achou estranho ter seu próprio email como remetente, mas considerou que fosse alguma forma de roubar dados e continuou sua vida como se nada tivesse acontecido.
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