Onze meses se passaram, e apenas um restava para o tão esperado momento. Por mais que se esforçasse não conseguia esquecer, e até gostava da aproximação, pois assim aquela ansiedade finalmente iria embora. Começou a relembrar de como tudo aquilo havia começado.
Nunca acreditou em fantasmas ou espíritos, até que um dia seu avô, que já havia falecido há mais de 10 anos começou a mostrar seus poderes do além. Primeiro foram simples aparições em sonhos, mas se assustou quando começou a escutar algumas frases soltas, logo no primeiro minuto depois de acordar. Achava que aquilo deveria ser fruto de alguns longos períodos de solidão junto com as saudades que sentia da infância e parentes.
Tinha dificuldade para levantar, e por vezes a voz dizia “hora de acordar”. Aquilo o deixava pensativo por alguns instantes mas não levava muito a sério. Tudo mudou, quando escutou no pé do ouvido, a frase tão clara que as palavras ecoaram para muito além daqueles dias e em cada célula do seu corpo. “Você tem apenas mais um ano nessa vida”.
Aquelas palavras surgiram como um aviso, uma profecia, e gerou um enorme furacão nos seus pensamentos. Lembrava da sua infância, dos irmãos e primos que já fazia anos que não via, dos pais que já estavam envelhecendo, dos amores perdidos e dos que não teria tempo de experimentar.
A morte lhe batia na porta, mas não se sentia doente a não ser pela saúde mental, que já desconfiava não estar como sempre tinha sido. Pensava em como iria morrer, provavelmente seria um acidente, pois ainda era novo para morrer de qualquer complicação decorrente da idade. Morrer em acidente não era algo que lhe agradava muito, mas de repente seria uma maneira rápida. E se fosse de um tiro, vindo de um assaltante desequilibrado, ou mesmo de um fuzil a alguns quilômetros de distância, onde a bala perdida encontraria seu lugar no destino?
Lembrou de um parente distante, que havia morrido repentinamente, exatamente 2 horas depois de sair do bar que sempre costumava ir. A autópsia mostrou que a causa da morte era um vírus que estava no repolho em conserva que ele havia consumido no bar. Imaginou se naquele dia, ele que já devia ter o fígado corroído pela cirrose, tivesse tido a ideia de parar de beber. Ai para não perder o costume, foi encontrar os amigos, mas decidiu tomar um refrigerante e comer um daqueles repolhos que sempre comia.
As possibilidades e as formas de morrer eram tão vastas que passado o susto inicial, e para não desenvolver uma síndrome do pânico, seus pensamentos se voltaram para a metade do copo que estava cheia. Aquele medo de morrer tinha que ter algum motivo, e essa curiosidade começou a ficar maior do que o próprio medo em si.
Já tinha tido muitas experiências para um adulto de sua idade, mas ainda faltava algo que ele não podia morrer sem antes ter tentado. Começou fazendo uma lista das coisas que queria realizar antes de morrer, das mais simples até aquelas que sempre julgava impossíveis.
Aquela lista tinha algo de triste, mas era como um grito de seu subconsciente para que iniciasse seu caminho em direção aos sonhos.
A primeira medida foi largar o emprego de piloto de carga interestelar. Aqueles longos períodos de solidão com certeza não faziam mais sentido. De que adiantaria morrer sozinho a anos-luz de distância do seu planeta natal? Assim que conseguiu, voltou a morar próximo de seus parentes.
Um sonho que sempre alimentava, era o de compor música. Nunca teve coragem para tentar, mas nem precisava mais da coragem. Tinha que fazer alguma coisa, por mais tola que fosse, pois era uma maneira de prolongar a sua influência entre seus semelhantes.
Percebeu que tinha conhecimento e força suficiente para mudar o mundo, talvez não mais o seu, mas o do resto da humanidade.
Demorou alguns meses para conseguir gravar as 10 faixas que compôs com muito esforço. Naquele dia era a primeira vez que escutava uma de suas músicas na rádio. Já fazia um tempo que ela vinha sendo escutada pela internet, mas chegar a um meio de comunicação de massa, no seu planeta, era algo que nem em sonho conseguia imaginar.
Por um instante percebeu que tinha conquistado todos os itens da lista. Se sentiu satisfeito, e finalmente aquele medo de morrer já não lhe aplacava. Até mesmo as frases soltas lhe traziam conforto e vivia cada dia como se fosse o último. Aquela atitude já lhe trazia frutos, e tinha certeza que estava vivendo intensamente todos os dias que lhe restava.
Agora faltava 1 mês para a profecia se concretizar, e já fazia algum tempo que não escutava as frases de seu avô. Tinha comemorado seu aniversário e como todas as festas daquele período essa também tinha um ar de despedida. Assim que acabou a festa foi para casa e pegou rapidamente no sono.
Uma outra festa havia começado, e nela estavam todas as pessoas que tinha conhecido, mas que já haviam morrido a algum tempo. Aquele seu parente lhe cumprimentou, estava pegando na bandeja uma porção de repolho em conserva quando sorriu e acenou com a mão. Seus avós carregavam um imenso bolo. Percebera que ele era o aniversariante, e decidiu curtir o momento que aquela experiência lhe proporcionara. Estava tão confortável junto de seus avós que nem percebeu quando começou a acordar. Lembrou apenas da última frase que escutou saindo entre tragadas de cachimbo “estaremos aqui lhe esperando para sempre…”
Aquele mês passou rapidamente, e na noite que antecedeu o grande dia saiu para beber com os amigos. Na volta para casa, seu carro enguiçou numa área sem cobertura e precisou esperar algum outro veículo que estivesse passando pela estrada e lhe desse carona até o posto de controle mais próximo.
Não demorou muito e começou a avistar uma luz sob a neblina. Fez sinal para o carro parar e ao entrar ficou espantado, se tratava do seu avô, dirigindo o mesmo carro que tinha na sua época. Conversaram amenidades e como o trajeto ia ser longo, seu avô ligou o rádio, e para sua surpresa a música que tinha composto estava tocando bem na hora. Seu avô elogiou a música e disse que o fim era o recomeço, e que uma nova vida se iniciaria em poucos instantes.
Havia fechado os olhos antes de um clarão lhe cegar. Achou que aquele era o momento onde começaria a ir para o outro lado. Já reconhecia as estrelas quando uma centelha de sentido lhe apresentou a imagem de fios de luz sobre o veículo estraçalhado num poste.
Exatamente um ano se passou desde o acidente, quando estava indo visitar seus pais na terra. Não havia ninguém na sala quando abriu os olhos e saiu do coma. Reconheceu um centro de tratamento intensivo e apertou o botão para chamar a enfermeira.
Depois dela explicar a sequência dos fatos, pediu uma caneta e um papel, e começou a rabiscar o que seria sua primeira composição.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
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