sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Dia das Bruxas em Asgard

Odin estava imerso em sua pesquisa que desenvolvia no melhor laboratório que o conhecimento acumulado do universo poderia conceber.

– Thor, esta pronto para mais uma intervenção? – Perguntou Odin olhando com ansiedade para aquele jovem que alterava o silêncio e a inércia ao entrar na sala.

– Sempre disposto e contente por poder lhe ser útil. – Respondeu Thor de prontidão olhando com curiosidade aquele dispositivo de observação que seu pai dava mais atenção do que jamais havia lhe dispensado.

– Lhe chamei, pois acho que descobri o motivo da Terra não ter explodido.

– Pela galáxia, os gigantes de gelo sumiram, e aquele planeta era para ter se esmigalhado. Como pode ele ter assumido essa órbita em torno do sol e girando em torno de si feito pião?

– Acreditamos que tenha sido por conta do núcleo de ferro. Mas somente se ele estivesse em estado líquido poderia ter absorvido toda a energia elétrica que você descarregou. Isso também explicaria o alinhamento que as partículas de seu núcleo tomaram, transformando ela num gerador magnético capaz de atrair a lua e assumir essa aceleração constante de rotações e ciclos.

– Impressionante. O universo esconde segredos que só se revelam diante da mais intensa energia.

– E não para por ai. Conseguimos aprimorar nosso mecanismo de observação a ponto de conseguir observar uma única rotação em torno do próprio eixo e ficamos impressionados com o que vimos. Lembra de Lif e Lifthrasir?

– Ainda não me perdoei por não ter encontrado eles a tempo. Mas se esperasse um pouco mais não sei se teria conseguido terminar com aquela raça de monstros e gigantes.

– Pois então, acreditamos que com a descarga, uma mutação aparentemente irreversível ocorreu com os dois. Eles passaram a se multiplicar em progressões jamais vistas e numa escala muito maior do que somem. Quando contamos a última vez havia 6.500.000.000 de Lifs e Lifthrasirs. E esse número cresce a cada rotação.

Thor procurou palavras, mas seu espanto foi tão grande que apenas se ateve a olhar diante daquelas imagens que registravam o que sua mente não podia entender.

– Isso foi previsto por alguns cientistas, mas nunca havia saído do campo teórico. – Disse Odin tentando reverter o impacto gerado pela descarga de novas informações.

– Você acha que deveríamos acabar com eles antes que se tornem uma praga incontrolável? – Pergunta Thor perplexo com a taxa de multiplicação da nova forma de vida.

– Essa é a primeira vez que podemos observar uma forma diferente de vida. Não acho que seja correto, e além do mais eles vivem pouco tempo, não são capazes de chegarem muito longe. O problema parece se concentrar na dimensão da anti-matéria. – Disse Odin revelando sua preocupação.

– Não sabia que havia dimensão de anti-matéria naquele plano.

– Também não sabíamos. Isso se revelou quando usamos as lentes certas.

– Então esse gerador magnético funciona também como um gerador de anti-matéria?

– De fato, o que vemos aqui é que a energia gerada também cresce em ritmos constantes e se tornam tão eternas quanto nós. Como se fossem nós na dimensão de anti-matéria.

– Existe alguma possibilidade dessa dimensão de anti-matéria encontrar a dimensão da matéria e se anularem?

– Na verdade elas se encontram num período exato do ciclo, onde ocorre a transmutação da energia. Essa barreira mais tênue permite fenômenos e manifestações nas duas dimensões.

– Uma passagem?

– Exato. O problema é que por algum motivo, algo está aprisionando toda essa energia de anti-matéria muito próximo a essa passagem. Pode ser que esse plano e toda essa frágil e promissora forma de vida desapareçam simplesmente por que os seres imortais da anti matéria insistem em se aglomerar num espaço que corresponde a 0,0001% de todo universo que poderiam ocupar. – Sentenciou Odin, tencionando o clima do recinto.

– E é ai que eu entro. – Exclamou Thor com orgulho. – Tem idéia do tipo de energia que vou me deparar?

– Provavelmente algum parasita de anti-matéria. Elimine o câncer e o crescimento deve voltar a ser constante e homogêneo.

– Me transporte para lá e eu resolvo isso da maneira mais rápida e eficiente possível. – Nisso pegou seu martelo mais potente do armário, seu cinto meijingard e foi em direção ao tele transporte.

– Temos aqui uma possibilidade única de conduzir nossos próximos sucessores para o topo das raças universais. Qualquer manipulação deve ser feita de maneira muito cuidadosa. Não deixe que saibam sobre a gente e só use o martelo se for necessário. – Alertou Odin.

– Serei o mais cuidadoso possível. – Disse Thor olhando para o martelo.

– A idéia é você ir para lá na região da periferia para se aproximar do foco sem ser percebido.

– Estou pronto.

– Boa sorte nessa jornada. – se despediu Odin fechando a cápsula de tele transporte e acionando o dispositivo.

E Thor parte para a dimensão de anti-matéria parando num ponto distante de toda a aglomeração. Demorou a se acostumar com a falta de densidade, mas a comodidade de se deslocar como raio de luz era algo fascinante. Já fazia um tempo que vagava silenciosamente sobre a vasta escuridão quando avistou uma luz alaranjada de longe.

Reduziu a velocidade e se aproximou com cautela.

Chegando mais próximo pode perceber que a luz vinha de uma espécie de cabana em forma de abóbora. Precisava obter informações e aquele poderia ser um bom começo.

– Scotch ou bourbon? – Perguntou o ser que se apresentava num elegante smoking preto.

– Desculpe, não saberia escolher. Estou à procura da passagem para a dimensão da matéria, saberia me indicar o caminho? – Perguntou Thor meio confuso e se sentindo fora de época com seus trajes nórdicos.

– Claro, a passagem se abre hoje e as comemorações já devem ter começado. Sempre passo do outro lado, onde as festas são mais divertidas. Não perderia o dia das bruxas por nada. Não quer mesmo beber alguma coisa?

Thor olhou por trás da figura, pode ver que a luz era formada por uma imensa quantidade de velas que pareciam queimar sem fim. Havia também uma imensa prateleira com uma variedade enorme de garrafas de diferentes cores e tamanhos.

– Bom acho que poderia provar algo. O que me sugere? – Perguntou Thor.

– Bourbon. – Respondeu Jack, já entrando na cabana e colocando duas pedras de gelo em cada copo.

Sentaram cada um em uma poltrona aconchegante.

– Qual seu nome? - perguntou Thor.

– As pessoas me chamam de Jack. Jack da lanterna.

– Interessante, mas pouco prático. Se quiser posso te criar uma luminária a base de eletricidade, seria mais leve e eficiente. – Nisso Thor se engasga com a queimação do álcool.

– Me desculpe, mas gosto do estilo. Além do mais manipular eletricidade poderia trazer problemas para esses lados. Aliás, e você? De onde veio e como se chama? – Sorriu Jack.

– Me chamam de Thor, vim de outra dimensão. – Se concentrando para não parecer alterado.

– Todos viemos, aqui é a dimensão da anti-matéria, só se chega aqui vindo da dimensão da matéria. Pergunto de que cidade veio da dimensão da matéria?

– Está certo, vim da dimensão da matéria, mas vivo num plano um pouco diferente desse ponto no universo. A velocidade e distância que separam nossos planos fazem com que eu veja seu mundo do mesmo jeito que vocês enxergam as minúsculas partículas de energia girando em torno de núcleos de carga polarizada. – Descarregou Thor como se não tivesse mais por onde fugir.

– Interessante, - os olhos de Jack se encheram de espanto - e qual seu propósito?

– Preciso fazer com que a concentração de anti matéria diminua na área da passagem. Esse sistema de duas dimensões que se transmutam é muito frágil, e se não diluirmos pela imensidão desse espaço, em pouco tempo as duas dimensões se aniquilaram e não sobrará nada. Deve existir algum tipo de parasita que está concentrando essa anti matéria e temos que devolver as rédeas do poder para a humanidade, pois acreditamos no potencial desse tipo de vida para o equilíbrio e crescimento do universo.

– Hum, e você espera fazer isso como? – Perguntou Jack recarregando seu copo.

– Primeiro preciso identificar o parasita, e para isso preciso ir para a passagem.

– Certo, a passagem é uma fronteira muito bem administrada por Deus e o Diabo, mas atualmente nenhum dos dois está muito acessível.

– Desculpe, mas quem são eles? Uma espécie de guardiões do portal?

– Hehehe – Riu Jack – essa foi boa. Na verdade eles estão mais para exploradores do portal, ou parasitas como você mesmo os chama.

– E como isso ocorreu? – Perguntou Thor recusando uma nova dose.

– Veja só. Um dia o primeiro homem morreu e conseqüentemente a primeira entidade aqui na dimensão da anti-matéria surgiu. Como primeira entidade, rapidamente percebeu que nessa imensidão ia ser difícil vagar sozinho, e assim manipulou os que vinham em seguida.

– Vendo por esse lado parece bem óbvio.

– Como primeiro líder, criou seu próprio reino, o reino dos céus. Ele acolhia a todos que vinham da passagem. Muito tempo se passou, e o reino dos céus já não era unanimidade. Começou com alguns que se recusavam a ficar aglomerados num ponto do universo e decidiram começar a migrar para a imensidão. Logo as histórias começaram a correr e o índice de captação de almas chegou a 70%, algo muito ruim para quem se considera única escolha. Uma de suas súditas mais fiel, começou a perceber nessa unanimidade uma falha e cansada de ter que fazer o serviço sujo de Deus decidiu abrir concorrência. Mas antes de sair, decidiu propor uma parceria e convenceu Deus de que essa era a única maneira de voltar aos 100% de almas que conseguiam nos bons tempos. No começo a divisão era muito clara, um fazia o bem e o outro mal, depois trocaram de nome e também o significado de bem ou mal. Com o tempo essa divisão foi ficando cada vez mais tênue e hoje em dia é difícil saber a diferença dos territórios do reino do céu e do inferno. Teve lugares que simplesmente trocaram a placa de um para outro e as almas continuaram se comportando como sempre se comportaram.

– Então esses são os lideres que terei que eliminar. Está claro que estão impedindo a propagação da energia e precisamos libertar essas almas. – Esbravejou Thor, se pondo em pé.

– Então acho que a gente tem alguma coisa em comum. Também não gosto deles, fui um dos poucos que enganei o Diabo, e por causa disso Deus também não me aceitou. – Disse Jack se levantando. – E graças a isso hoje conheço mais o universo do que esse monte de almas que insistem em vestir sempre o mesmo terno, branco ou vermelho. Como podem se acharem elegantes usando terno branco, ou vermelho? Onde está o estilo, a diversidade, as cores? Chega a cansar a vista. Mas não acho que seja tão simples eliminar Deus, e muito menos o Diabo. Eles são simplesmente os mais poderosos aqui do pedaço. Como pretende fazer isso?

– Primeiro preciso encontrar a fenda, com isso encontro eles.

– Posso te guiar, não perderia isso por nada nesse universo.

Nisso fechou a cabana e puseram se a vagar rumo à aglomeração.

Na medida em que se aproximavam, Thor notou que predominava na paisagem o branco e o vermelho. A radiação luminosa crescia constantemente.

Chegaram num vale, onde um enorme cânion se estendia pelo horizonte. Nas rochas que formavam a grande fenda, se via duas bolas muito iluminadas, uma branca e outra vermelha, cada uma em cada lado do cânion.

– Aqui estamos na passagem que liga as dimensões e naquilo que seria o portal de captação do reino do céu e do inferno. Deve se abrir dentro de instantes. – Anunciou Jack.

– Interessante, e Deus e o Diabo, estão aonde?

– São essas bolas de energia, antigamente elas falavam, davam ordens, mais hoje só os assessores mais próximos têm direito as propagações de sabedoria, e num evento tão discreto que alguns duvidam que realmente existam.

– Então você está dizendo que dois holofotes são capazes de controlar toda essa quantidade de anti-matéria? – Perguntou Thor estupefato.

– Na verdade elas são mais uma representação de poder. As decisões de menor granularidade ficam para os auxiliares. As mais relevantes ficam para os assessores mais próximos.

– Tudo isso está muito estranho, vamos encontrar algum desses assessores.

– Estamos com sorte, como hoje é o dia da festa com certeza os assessores estarão presentes.

– E vão comemorar o que exatamente?

– É o dia da captação, do arrebatamento, quando os seres mortais se transformam em imortais aqui na dimensão da anti-matéria. Ai tanto o reino do céu quanto o inferno se preparam para dividir e receber da melhor forma seus convidados já alienados.

– Como assim já alienados? – Perguntou Thor convencido de que aquela tinha sido a maior viajem de que já tinha participado.

– O reino do céu e o inferno só existem aqui na anti-matéria, mas seus terrenos já são negociados pelos agentes dos dois senhores na dimensão da matéria. Esses agentes se revelam para algumas pessoas estrategicamente escolhidas e os manipulam, criando líderes que funcionam como iscas para atrair seguidores. Ai quando eles passam para essa dimensão, suas escolhas já são direcionadas pela sugestão. – Explicou categoricamente Jack.

– Ta parecendo que esses senhores estão fazendo os mortais viverem como imortais e os imortais viverem como mortais somente para aumentar seu poderio. Isso precisa terminar.

– Não quero parecer pessimista, mas acho que tanto Deus quanto o Diabo não vão querer largar o osso tão cedo. E mesmo toda essa massa de almas inertes, eles talvez nem consigam conviver com a ausência de direcionamento. – Falou Jack, tentando mostrar a complexidade daquela missão surreal.

– Eles não terão outra escolha. E quando essas influências estiverem fora do jogo, novos líderes surgirão, mas serão lideranças menores, e essa divisão dos poderes chegara até ao ponto em que o poder voltara para cada unidade de consciência. Devolverei o controle do destino para o presente, e a culpa e ônus pelas decisões cairão em cima do agente causador, gerando consciência e aprendizado. Com o tempo um caminho se bifurcará em várias direções e a trilha para a conquista do universo em ambas as dimensões estarão abertas. – Exclamou Thor com ares de quem estava ansioso para começar a abrir as jaulas que prendiam aquelas consciências.

– Espero que saiba o que dizer para chegar até os figurões. Um dos assessores de Deus está logo atrás de você. – Alertou Jack espantado com a abordagem sorrateira do assessor.

Thor virou-se lentamente, já preparando seu martelo para um golpe singelo.

– Thor, sua majestade anseia pela sua presença. Por favor, me acompanhe.

Thor olhou para Jack.

– Uma das características dele é a onisciência. – Murmurou Jack.

Caminharam em silêncio por intermináveis corredores silenciosos até chegarem numa sala gigantesca, cujos limites estavam difíceis de enxergar com nitidez.

– Aguardem aqui, sua majestade aparecerá em breve. – E se retirou silenciosamente.

Thor já ia preparando o martelo quando Jack interveio.

– Espere, acho que seria mais interessante se você conseguisse uma maneira de juntar os dois. Como lhe falei, eles têm um acordo, se você conseguiu chegar a Deus com essa facilidade, não espere o mesmo para o Diabo.

– Quem garante que ele já não esperaria por isso também, afinal não mandei recado avisando minha chegada. Estou farto desse jogo de adivinhação.

Nisso, de um canto da sala que eles ainda não haviam prestado atenção, se ouviram passos. Eram duas pessoas que caminhavam lentamente. Uma mulher de vestido longo branco e um homem de terno vermelho.

Assim que a chegaram à sala foi Thor quem quebrou o silêncio.

– Lif e Lifthrasir? São vocês?

– Sim Thor, estamos aqui no outro lado, esquecidos pela eternidade. - Lif disse ajeitando o vestido.

– Pela galáxia! Achei que nunca mais os veria. Achei que vocês haviam morrido, mas Odin me disse que haviam sofrido uma mutação irreversível. Não esperava velos assim em tão bela forma.

– Nós esperamos muito tempo por você Thor, e assim que soubemos de sua presença tratamos de providenciar sua vinda para cá. – Lifthrasir olhou para Jack como se desvelasse seu poderio de manipulação sobre aquela nem tão inocente consciência que o desafiara outrora.

– Então vocês são Deus e o Diabo? – Thor estava atordoado.

– E quem mais esperava que fosse? Achou que apareceriam duas bolas gigantes de luz? Aquilo é só para não desgastar nossa imagem. Quem você achou que estaria mais familiarizado com a vida eterna? Além do mais, o que você chama de mutação irreversível, nós chamamos de família, não poderia jamais abandonar as crias que surgiram de minhas entranhas. - Lif esbravejava.

– Só que vocês estão podando o crescimento dessa nova forma de vida. Esse gerador de anti-matéria já poderia ter conquistado a galáxia, ou até mesmo o universo, mas continuam vivendo nesse frágil ambiente, escravizados e estagnados. Creio que apreenderam muito bem com os professores imortais. Talvez vocês tenham agido com boas intenções, mas sua proteção paternal, na verdade desprotege, deixando seus filhos livres da culpa que suas ações geram. E o mais triste é tirar o ônus da vitória. Não posso deixar que continuem agindo como imperadores, e que continuem passando valores que são frutos de uma sociedade em declínio que é a nossa dos imortais. O universo precisa de novos pensamentos e de uma renovação de energia. – disse Thor.

– Talvez fosse interessante colocar, que não gostaríamos de nos retirar, nem voltar a viver como simples imortais irrelevantes numa sociedade arrogante e cansada. Aqui somos entidades superiores, somos valorizados e desfrutamos de um poder que jamais teríamos em qualquer plano ou dimensão do universo. E como você falou isso é irreversível. – Exclamou Lifthrasir.

– Não posso deixar que a ganância pelo poder seja maior que o direito que essa raça possui de escrever sua própria história. Vou acabar com isso agora. – Thor levantou seu martelo, mas não provocou reação na sala, exceto por Jack que já estava atrás de um sofá.

– Saiba que essa sala foi preparada para que a eletricidade se dissipe sem causar danos, ou seja, seu martelo não poderá nos destruir.

Thor ficou desconcertado, deixando cair seu martelo.

– Bom, nesse caso terei que ser um pouco mais singelo.

Nisso Thor ativou o campo de força com seu cinto meijingard e englobou os quatro integrantes da sala, e com um sinal foram tele portados para sala de Odin.

– Mas... Como isso é possível? Lif e Lifthrasir? E você quem é? – perguntou Odin para Jack, olhando para a cápsula de tele transporte onde se espremiam os quatro.

– Abra a porta que eu explico. – disse Thor com dificuldades tentando tirar o pé de Jack que estava na sua cara.

Odin abriu e rapidamente todos estavam na sala de observação do laboratório.

– Bom agora vamos às notícias. Apresento-lhe os cânceres, ou ainda Deus e o Diabo. – Anunciou Thor.

– Lif e Lifthrasir! Não acredito que veria vocês novamente. Que bom que Thor os trouxe de volta, estou muito contente em velos novamente. Mas por que cânceres? – Perguntou Odin.

– Eram eles que estavam manipulando os humanos. Estavam tão cegos com o poder que tinham que não queriam sequer voltar. Chegaram ao abuso de dissipar toda eletricidade da anti-matéria com medo de que eu voltasse e usasse o martelo.

– Entendo Thor, mas não os julgue. Eles devem ter ficado alguns milhares de anos naquela dimensão, sem contato conosco. Isso já é um castigo maior do que qualquer falha que pudessem ter cometido. Além do mais, parece que você conseguiu reverter o câncer. Analisei as últimas rotações, e parece que já surgiu um sistema novo, onde os líderes são temporários e se alteram a fim de manter a aceleração do crescimento. Acredito que Lif e Lifthrasir serão essenciais para entendermos essa nova forma de vida, pois eles são as sementes, e os frutos não caem longe da árvore. Precisamos deles aqui conosco, nos guiando e auxiliando a manter em crescimento esse frágil sistema.

– Pode contar com a gente para o que for preciso Odin. – Disse Lifthrasir abraçando Lif. – Se existe algo que possamos fazer para reverter os danos causados por nossas influências, faremos com muito esmero.

– Por em quanto precisamos que tragam para nosso conhecimento essa cultura de crescimento que vocês presenciaram, mesmo que tenham sido de forma bastante tímida, como foi até a saída de vocês. Precisamos oxigenar nossos pensamentos com novas idéias, para sairmos da inércia estacionária que se encontra nossa sociedade.

– Acho que temos um excelente exemplar dessa cultura entre nós. – disse Thor olhando para Jack que ainda não tinha se revelado.

– Quer dizer que trouxe consigo uma forma de consciência originaria da Terra? – Odin olhou espantado para Jack.

– Na verdade foi uma coincidência, não poderia telo deixado lá naquela dimensão e correr o risco de estragar nosso anonimato. Ele é uma boa pessoa. – Disse Thor dando a deixa para Jack se apresentar.

– Meu nome é Jack e também posso ajudar naquilo que for necessário. Por um acaso vocês comemoram o dia das bruxas aqui nesse plano? – Perguntou Jack sentindo uma imensa falta da festa que havia perdido.

– Dia das bruxas? – Perguntou Odin curioso.

– É uma festa a fantasia para celebrar a imortalidade adquirida na mortalidade. – Achando que essa seria a explicação mais cosmopolita que poderia ter imaginado.

– Acho que seria um bom evento para você começar a organizar. Tenho certeza que todos gostariam de comemorar independentemente do nome que se de a festa. – disse Odin já feliz com a idéia de tirar a poeira do traje de festas.

– Maravilha Odin. Só mais uma coisa. Na pressa acabei esquecendo meu martelo, talvez tenha influenciado em alguma coisa. – Disse Thor como se fosse uma coisa sem importância.

- Hum. Isso explica por que eles começaram a dominar a eletricidade tão rapidamente. Em pouco tempo desenvolveram tecnologia que ampliam suas forças e sentidos e de acordo com os meus cálculos devem começar a colonizar sistemas próximos em torno de mais algumas rotações. Na área da anti-matéria, o ruído monocromático mudou para milhares de tonalidades de cores, a nuvem de anti matéria está se dissipando e espalhando as cores pelo universo afora.

Todos em Asgard comemoravam, mas Lif e Lifthrasir planejavam seu retorno.

UM ANO

Onze meses se passaram, e apenas um restava para o tão esperado momento. Por mais que se esforçasse não conseguia esquecer, e até gostava da aproximação, pois assim aquela ansiedade finalmente iria embora. Começou a relembrar de como tudo aquilo havia começado.

Nunca acreditou em fantasmas ou espíritos, até que um dia seu avô, que já havia falecido há mais de 10 anos começou a mostrar seus poderes do além. Primeiro foram simples aparições em sonhos, mas se assustou quando começou a escutar algumas frases soltas, logo no primeiro minuto depois de acordar. Achava que aquilo deveria ser fruto de alguns longos períodos de solidão junto com as saudades que sentia da infância e parentes.

Tinha dificuldade para levantar, e por vezes a voz dizia “hora de acordar”. Aquilo o deixava pensativo por alguns instantes mas não levava muito a sério. Tudo mudou, quando escutou no pé do ouvido, a frase tão clara que as palavras ecoaram para muito além daqueles dias e em cada célula do seu corpo. “Você tem apenas mais um ano nessa vida”.

Aquelas palavras surgiram como um aviso, uma profecia, e gerou um enorme furacão nos seus pensamentos. Lembrava da sua infância, dos irmãos e primos que já fazia anos que não via, dos pais que já estavam envelhecendo, dos amores perdidos e dos que não teria tempo de experimentar.

A morte lhe batia na porta, mas não se sentia doente a não ser pela saúde mental, que já desconfiava não estar como sempre tinha sido. Pensava em como iria morrer, provavelmente seria um acidente, pois ainda era novo para morrer de qualquer complicação decorrente da idade. Morrer em acidente não era algo que lhe agradava muito, mas de repente seria uma maneira rápida. E se fosse de um tiro, vindo de um assaltante desequilibrado, ou mesmo de um fuzil a alguns quilômetros de distância, onde a bala perdida encontraria seu lugar no destino?

Lembrou de um parente distante, que havia morrido repentinamente, exatamente 2 horas depois de sair do bar que sempre costumava ir. A autópsia mostrou que a causa da morte era um vírus que estava no repolho em conserva que ele havia consumido no bar. Imaginou se naquele dia, ele que já devia ter o fígado corroído pela cirrose, tivesse tido a ideia de parar de beber. Ai para não perder o costume, foi encontrar os amigos, mas decidiu tomar um refrigerante e comer um daqueles repolhos que sempre comia.

As possibilidades e as formas de morrer eram tão vastas que passado o susto inicial, e para não desenvolver uma síndrome do pânico, seus pensamentos se voltaram para a metade do copo que estava cheia. Aquele medo de morrer tinha que ter algum motivo, e essa curiosidade começou a ficar maior do que o próprio medo em si.

Já tinha tido muitas experiências para um adulto de sua idade, mas ainda faltava algo que ele não podia morrer sem antes ter tentado. Começou fazendo uma lista das coisas que queria realizar antes de morrer, das mais simples até aquelas que sempre julgava impossíveis.

Aquela lista tinha algo de triste, mas era como um grito de seu subconsciente para que iniciasse seu caminho em direção aos sonhos.

A primeira medida foi largar o emprego de piloto de carga interestelar. Aqueles longos períodos de solidão com certeza não faziam mais sentido. De que adiantaria morrer sozinho a anos-luz de distância do seu planeta natal? Assim que conseguiu, voltou a morar próximo de seus parentes.

Um sonho que sempre alimentava, era o de compor música. Nunca teve coragem para tentar, mas nem precisava mais da coragem. Tinha que fazer alguma coisa, por mais tola que fosse, pois era uma maneira de prolongar a sua influência entre seus semelhantes.

Percebeu que tinha conhecimento e força suficiente para mudar o mundo, talvez não mais o seu, mas o do resto da humanidade.

Demorou alguns meses para conseguir gravar as 10 faixas que compôs com muito esforço. Naquele dia era a primeira vez que escutava uma de suas músicas na rádio. Já fazia um tempo que ela vinha sendo escutada pela internet, mas chegar a um meio de comunicação de massa, no seu planeta, era algo que nem em sonho conseguia imaginar.

Por um instante percebeu que tinha conquistado todos os itens da lista. Se sentiu satisfeito, e finalmente aquele medo de morrer já não lhe aplacava. Até mesmo as frases soltas lhe traziam conforto e vivia cada dia como se fosse o último. Aquela atitude já lhe trazia frutos, e tinha certeza que estava vivendo intensamente todos os dias que lhe restava.

Agora faltava 1 mês para a profecia se concretizar, e já fazia algum tempo que não escutava as frases de seu avô. Tinha comemorado seu aniversário e como todas as festas daquele período essa também tinha um ar de despedida. Assim que acabou a festa foi para casa e pegou rapidamente no sono.

Uma outra festa havia começado, e nela estavam todas as pessoas que tinha conhecido, mas que já haviam morrido a algum tempo. Aquele seu parente lhe cumprimentou, estava pegando na bandeja uma porção de repolho em conserva quando sorriu e acenou com a mão. Seus avós carregavam um imenso bolo. Percebera que ele era o aniversariante, e decidiu curtir o momento que aquela experiência lhe proporcionara. Estava tão confortável junto de seus avós que nem percebeu quando começou a acordar. Lembrou apenas da última frase que escutou saindo entre tragadas de cachimbo “estaremos aqui lhe esperando para sempre…”

Aquele mês passou rapidamente, e na noite que antecedeu o grande dia saiu para beber com os amigos. Na volta para casa, seu carro enguiçou numa área sem cobertura e precisou esperar algum outro veículo que estivesse passando pela estrada e lhe desse carona até o posto de controle mais próximo.

Não demorou muito e começou a avistar uma luz sob a neblina. Fez sinal para o carro parar e ao entrar ficou espantado, se tratava do seu avô, dirigindo o mesmo carro que tinha na sua época. Conversaram amenidades e como o trajeto ia ser longo, seu avô ligou o rádio, e para sua surpresa a música que tinha composto estava tocando bem na hora. Seu avô elogiou a música e disse que o fim era o recomeço, e que uma nova vida se iniciaria em poucos instantes.

Havia fechado os olhos antes de um clarão lhe cegar. Achou que aquele era o momento onde começaria a ir para o outro lado. Já reconhecia as estrelas quando uma centelha de sentido lhe apresentou a imagem de fios de luz sobre o veículo estraçalhado num poste.

Exatamente um ano se passou desde o acidente, quando estava indo visitar seus pais na terra. Não havia ninguém na sala quando abriu os olhos e saiu do coma. Reconheceu um centro de tratamento intensivo e apertou o botão para chamar a enfermeira.

Depois dela explicar a sequência dos fatos, pediu uma caneta e um papel, e começou a rabiscar o que seria sua primeira composição.

POSSIBILIDADES QUÂNTICAS

Quantic era o codinome de um jovem hacker, e nesse dia tinha seu homônimo entrando em fase de testes nas dependências do exército. As possibilidades do processamento quântico eram tão vastas e desconhecidas quanto o futuro desse jovem que tinha nascido logo no início da maior explosão tecnológica que a humanidade já havia presenciado.

Era seu aniversário, fazia 28 anos. Acordou cedo e como de costume abriu sua caixa de email. Achou estranho quando seu próprio endereço estava no campo de um dos remetentes. Ao abrir, percebeu se tratar de uma carta um tanto quanto enigmática, pois continha os números da loteria que iria correr naquele dia. Abaixo uma descrição de como seria o mundo após uma guerra nuclear e a localização virtual da máquina que seria responsável pelo início do conflito.
Analisou o endereço da máquina, e identificou pelo prefixo que se tratava de uma rede de uso restrito, militar. Seria difícil invadir uma dessas redes, se não impossível. Decidiu fazer a aposta na loteria para verificar se aquilo tudo não era fruto de uma armadilha, arquitetada para roubar dados de sua máquina.

Ficou muito feliz quando ganhou sozinho o prêmio acumulado. Sem perder muito tempo, foi logo adquirindo empresas e com uma habilidade fora do comum, guiou a civilização para um novo patamar tecnológico.

Vivia numa ilha isolada quando soube pelo noticiário que todos os centros urbanos haviam sido atingidos por ogivas nucleares. Foi só ai que se lembrou da segunda parte do email e sentiu profunda dor por não ter feito nada para impedir aquele cenário.
Decidido a reverter à situação, vasculha os arquivos da empresa a procura da localização dos servidores quânticos que sua empresa havia produzido. Encontrou a única máquina que ainda funcionava, e ficou atordoado quando percebeu que o endereço virtual era o mesmo que o email havia indicado tempos atrás.

Conseguiu acessar a máquina e verificando as mensagens de alerta, percebeu que as ogivas foram lançadas por um ataque hacker, mas o rastreador não foi capaz de identificar a origem.
Escreve um email, contando a realidade que estava vivenciando e pedindo auxilio para evitar essa tragédia. Titubeou entre os números da loteria. Depois de refletir, percebeu que embora tivesse feito a humanidade progredir, aquele dinheiro lhe roubou o altruísmo e decidiu ocultar os números.

Calculou a velocidade, ajustou o acelerador de partículas para receber um conjunto de fótons, e enviou a mensagem eletrônica para seu próprio email. Os bits de informação saem do processador quântico direto para o acelerador, que manda os fótons a mais de 500 vezes a velocidade da luz em direção ao local onde o satélite roteador da internet interplanetária estaria no dia do seu aniversário de 28 anos.Acordou cedo, e ao abrir a caixa de email, se deparou com profecias de que o mundo iria acabar. Achou estranho ter seu próprio email como remetente, mas considerou que fosse alguma forma de roubar dados e continuou sua vida como se nada tivesse acontecido.