terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

UPGRADE

Muitos anos se passaram desde que o Servidor Central, a base de dados de um hospital, iniciou seus serviços de maneira ininterrupta.

Dr. Riks era responsável por todo o funcionamento do SC e ocupava uma pequena sala no centro do complexo sistema. Gostava da responsabilidade de coordenar um serviço de extrema importância, mas de vez em quando sonhava com a calmaria dos primeiros dias, quando quase nada acontecia e o arquivo central cabia numa maleta de trabalho. Hoje o arquivo central toma três andares e é preciso de uma imensidão de facilitadores para desempenhar as inúmeras tarefas que são exigidas. Ansiava pelo dia em que novos arquitetos redesenhariam todo o SC e finalmente conseguiria se aposentar.

Acabava de analisar os relatórios de backup quando a secretária interrompe seu silêncio.

— Dr. Riks, um senhor de nome Zack Sparrow está aguardando aqui na recepção, posso deixá-lo entrar?

— Pode sim, já terminei as rotinas de análise.

A porta se abre e um senhor baixo de bigode entra com um andar agitado. Tentava disfarçar o suor que escorria na testa já ampliada pela falta de cabelo.

— Bom dia Dr. Riks, venho por intermédio do administrador geral, diretora Raíza, e solicito a minha imediata instalação no SC.

— Bom dia senhor Zack, — Dr. Riks pegou os papéis que Zack trazia nas mãos e despachou para outra unidade — já encaminhei suas especificações para o pessoal dos recursos, em quanto providenciamos tudo, o senhor gostaria de tomar um café na sala de dados randômico? É nossa última invenção na área de lazer, se acertar o próximo número pode até ganhar um local privilegiado no arquivo central.

— Hum... Ok, vou aguardar lá, mas saliento que a administradora geral solicitou minha imediata instalação, e ela não suportará demoras. — Disse com ar de superioridade o senhor Sparrow.

Nisso Dr. Riks convoca o diretor de segurança, Dr. Kasperovsky.

— Dr. Kasperovsky, já deve estar a par do novo cidadão que está querendo se instalar aqui no SC. Já checou a ficha do indivíduo, existe alguma restrição? — Pergunta um ansioso Dr. Riks.

— Sim já estou sabendo Dr. Riks e já levantei a ficha do indivíduo. Estava vindo lhe alertar quando o senhor me chamou.

— Sabia, aquele cidadão me pareceu muito suspeito logo de início. Ainda mais com nome de pirata. Vou acionar o alerta geral de intruso, temos que reportar imediatamente a diretora Raíza para que ela aborte essa instalação.

— Calma, disse Kasperovsky, realmente se trata de um sujeito perigoso, porém não tem nada nas especificações dele que a gente possa acusá-lo, pelo menos não ainda.

— Me explica melhor Kasperovsky, se não tem nada então por que você acha que ele representa um perigo?

— A princípio desconfiei pelo seu tamanho, e depois pela sua funcionalidade. Como pode um sujeito daquele tamanho se dizer capaz de reduzir o processamento pela metade? Você conhece o tamanho dos blocos, só para manipular seriam necessárias algumas toneladas de bytes. Mas isso ainda não é uma prova, porém quando fui atrás do fabricante, recebi um alerta da central de inteligência, dizendo que se tratava de um cidadão ainda pouco visto. Nos aconselharam a coletar o maior número de informações possíveis para conseguirmos prende-lo em flagrante.

— Hum... Não estou gostando disso. Você está sugerindo que o instalemos para depois percebermos que ele causou danos que podem ser até irreversíveis?

— Na verdade já acionei um grupo da segurança só para monitorá-lo de perto. Todas as ações dele já estão sendo gravadas. No primeiro deslize ou sinal de sabotagem conseguiremos pega-lo. Só precisamos entender como ele funciona para chegarmos ao fabricante e assim erradicá-lo do mundo virtual.

— Bom se é o que você deseja, só não estou me sentindo confortável em relação a isso. Vou pedir para instalá-lo longe dos documentos do hospital, e disponha de mais um segurança só para proteger a integridade do arquivo central.

A instalação se inicia, e caixas e mais caixas vão chegando pela via expressa de banda larga. Tudo sempre muito bem checado pelos agentes de segurança. Foi no momento de desempacotamento que uma chave apareceu e o senhor Zack a pegou com muita agilidade. Um segurança foi ao seu encontro, porém Zack já havia usado sua chave mestra inutilizando todo o sistema de segurança.

Dr. Riks sente falta dos últimos registros de acompanhamento do senhor Zack, foi quando percebeu que não conseguia contatar o Dr. Kasperovsky.

Pela primeira vez o SC parecia estar vulnerável. Aquilo nunca havia ocorrido, ele sabia que a culpa era sua de ter deixado o velho Kasperovsky seguir com aquele plano mirabolante. Se ninguém ainda havia conseguido identificar como esse Zack trabalha, por que ele achou que Kasperovsky iria conseguir? Agora por causa dessa ingenuidade as informações de um monte de pacientes estavam em risco.

Pela central de monitoramento conseguia acompanhar a instalação. Alguns agentes já começavam a circular com o uniforme do fabricante de Zack. Era questão de tempo para eles encontrarem a sala de comando do Dr. Riks.

Foi nesse momento que Dr. Riks se lembrou do último procedimento que lhe restava e decide reiniciar o SC antes que a instalação de Zack tenha terminado. Abre o cofre no chão, digita a senha e puxa a alavanca CtrlAltDel.

Uma grande luz azul iluminou todo o SC, mas por mais incrível que parecesse o sistema não havia reiniciado, e sim paralisado por completo, exceto ele, Dr. Riks podia se mover.

Decide então caminhar em busca de Zack e se surpreende quando esse aparece na sua porta, também se movendo.

— Bom dia Dr. Riks, lamento lhe informar mais hoje é o dia em que o senhor irá se aposentar e ceder lugar para a próxima geração de processadores, agora chamada de RiksPlus. Fui contratado pela Dr. Raíza para realizar esse “upgrade” no SC. Espero que descanse em paz. — Essas foram às últimas palavras que Dr. Riks ouviu antes de ser substituído.

Depois de uma exaustiva reformulação no SC, Dr. RiksPlus acabava em tempo recorde de analisar os relatórios de backup e se surpreendia com os relatórios de histórico do antigo Dr. Riks, que agora deveria estar cuidando de placares virtuais de jogos infantis.

Espera Contínua

A Moto Contínuo Engenharia era uma empresa especializada em motores e geradores de última geração, sua sede era na terra e possuía filiais em toda a galáxia. Era uma sexta-feira, final de expediente quando Cristina que trabalha no setor de atendimento ao cliente, percebe o alerta de emergência. Era o pedido de ajuda do Dr. Laste.

Dr. Laste havia cumprido seu papel na ciência moderna, e depois dos 120 anos decidiu se isolar numa das luas de Saturno para desenvolver suas teorias e experimentos longe da agitação da humanidade.

— Boa noite Dr. Laste, recebemos seu chamado de alerta. Alguma coisa grave? — Pergunta atenciosamente Cristina.

— Minha filha, se você pode chamar de grave um pedindo de auxilio para a manutenção do meu único gerador elétrico a mais de duas semanas eu acredito que seja. Em mais uma semana não sei se estarei aqui para receber o técnico de manutenção.

— Me deixa dar uma olhada para ver se identifico o porquê dessa demora, 1 minuto senhor.

Nisso Cristina já sabia que o problema era do gerador elétrico. Quase não havia mais ninguém que entendesse daquela tecnologia. Estavam tentando o convencer para trocar o gerador por um mais atual, porém ele dizia que poderia interferir em seus experimentos. Vasculhou o histórico do único técnico que poderia prestar manutenção para o Dr. Laste, Peterson Tox. Percebeu que haviam lhe atribuído tarefas de prioridades maiores, como socorrer a filha do embaixador de Sirius que havia fundido o motor da nave esportiva numa nebulosa, e arrumar os geradores que esquentavam as cataratas do Iguaçu para o sheik Mustafa Pereira. Acionou o comunicador espacial e entrou em contato com Tox.

— Certo Tox, quanto tempo você consegue chegar ao Dr. Laste? — Pergunta Cristina já cansada de ouvir as desculpas de Tox.

— Se eu partir agora, em uns seis dias. — Respondeu Tox.

— Então parta ontem, pelo que o doutor me falou pode ser que ele não tenha esse tempo. — Desliga Cristina já preocupada. Nisso retorna o chamado com o Dr. Laste:

— Doutor, o técnico deve estar partindo agora.

— Minha filha, espero que essa não seja nossa última conversa, gostaria muito de receber o técnico e comemorar o concerto do gerador. — Ironiza o velho Dr. Laste.

— Com certeza doutor, ele deverá chegar a tempo. — Disse Cristina com um sorriso mais forçado que pode fingir.

A viagem estava ocorrendo conforme o planejado até Tox ser surpreendido por uma onda de meteoros que o forçou a fazer um desvio, lhe custando dois dias a mais na viagem.

— Bom dia doutor. Ainda bem que a esperança é a última que morre não é? Tive uns contratempos, mas aqui estou. Onde está o gerador? — Pergunta Tox na entrada do laboratório do Dr. Laste, como se este nem tivesse notado o atraso.

— Bom no meu caso tive que matar a esperança antes que ela me matasse.

— Mas como assim doutor?

— É como aquele antigo provérbio, é bom ter esperança, mas é ruim depender dela. Quando o gerador parou e percebi que em algumas horas iria morrer, decidi abrir a geringonça e fiquei surpreso ao verificar que seu funcionamento era muito parecido com um motor de um antigo veículo que possuía na minha juventude. Ai foi só apertar um parafuso aqui e outro ali e acho que ta funcionando melhor do que antes.

— Mas como, então o senhor já arrumou?

— Já meu filho, e já comemorei também, então se você puder levar essa rolha para a Cristina eu agradeço. Passe bem.

E assim Dr. Laste fechou a porta na cara de Tox e esse voltou sem entender muita coisa.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Força da Ira

James Wailer, Roberto Leymar e Peterson Tox eram amigos de longa data e depois de muito tempo se reencontraram para uma viajem.
— Grande Wailer, preparado para conhecer a festa mais louca dessa galáxia? — Perguntou Leymar abraçando o amigo.
— E como é Leymar, espero que seja tudo isso que tem falado, afinal uma semana viajando em dobra tem que valer a pena.
— Você não irá se arrepender, isso eu lhe garanto. O difícil será voltar para o trabalho depois de conhecer o paraíso. Cadê o Tox, como sempre o último a chegar.
— Deve está se enrolando, mas em quanto isso já vou reservando meu lugar na nave. — Disse Wailer já acionando as portas de descompressão. Ambos entraram na nave e escolheram os melhores quartos.
— Impressionante, mas será que não era melhor ter alugado uma nave de cruzeiro ao invés dessa “off-road”? — Perguntou Wailer impressionado com a robustez da nave.
— Achei que era melhor para essa viajem. Como passaremos por sistemas fora da aliança, pode ser que encontremos algumas adversidades, mas nada que um modelo SpaceRover não possa transpor.
— Como assim passar por sistemas fora da aliança? Achei que não sairíamos das rotas padrões.
— Na verdade não tem necessidade de sair, se você quiser levar um mês viajando. Mas com uma rota de atalho, além de chegarmos numa semana ainda podemos explorar alguns pontos obscuros do mapa, não é uma boa?
— Agora entendi por que insistiu tanto para eu vir nessa viajem. Ninguém em sã consciência deve ter aceitado seus convites.
— Relaxa Wailer, vai ser uma boa viajem, e no final um paraíso para recompensar. Satiland é muito melhor ao vivo do que a que você conhece nos programas holográficos, você vai ver.
— Não estou preocupado com Satiland, mas sim com essa rota ousada. Onde foi mesmo que você conseguiu?
— Foi meu avô Gregório. Ele disse que quando era jovem costumava fazer essa rota, mas depois de algum tempo ela simplesmente sumiu dos guias. Mesmo assim continuou fazendo e me disse que não têm com o que se preocupar, além de mais curta ele nunca tivera problema algum.
— Sei, espero que tenhamos tanta sorte quanto seu avô. — Respondeu Weiler ainda titubeando se essa não seria uma boa hora de sair daquela enrascada, mas pensou sobre o tempo que não se viam e decidiu acompanhar seu amigo.
Nisso a porta da nave se abriu novamente e Tox apareceu com mais bagagem que o convencional.
— E aí galera, e essa SpaceRover é boa mesmo? Só uma dessas para agüentar uma reunião da nata. Como é que tá essa força Leymar, e tu grande Wailer, estamos ficando velho, não lembrava esses cabelos brancos em nossa última reunião.
— Grande Tox, como sempre atrasado. E com esse tanto de bagagem acho que tu não pretende voltar. Brigou novamente com a Rita? — Sacaneou Wailer.
— Opa, como sempre ela ficou falando dos meus amigos irresponsáveis, mas nada que algumas promessas não liberassem meu visto. Quanto à bagagem, depois que Leymar me disse que iríamos por alguns caminhos alternativos, achei que poderíamos precisar de alguns apetrechos tecnológicos. Só espero não ficar um mês a deriva como aconteceu naquela viajem de formatura que seu Gregório nos deu de presente. — Tox olhou para seu amigo Leymar.
— Bom pelo menos dessa vez trouxe um sinalizador subespacial. Se ficarmos a deriva basta acionar o dispositivo que em menos de uma semana estaremos em casa. — Disse Leymar apontando para o dispositivo fixo na parede.
— Isso se for quando estivermos voltando, por que se estivermos no caminho da ida eles tem que levar a gente para Satiland. — Argumentou Wailer, acendendo a consciência.
— Certamente, não quero perder essa festa por nada, a próxima é só daqui a quinze anos, e daqui a quinze anos eu não sei vocês, mas vou preferir passar minhas férias em campos de descanso, nada de música alta. — Acompanhou Tox.
— Então é isso ai, vamos desatracar que já estamos perdendo tempo.  — Disse Leymar em quanto acionava o piloto automático da nave e passava os parâmetros da rota. 
Em poucos segundos estão em velocidade de dobra, em direção á Satiland. A viagem é tranqüila. Revezavam entre histórias, refeições e repousos. Depois de colocar os assuntos em dia discutiam o cotidiano. Três dias se passaram, e naquele instante estavam passando pelos pontos obscuros do mapa. Era estranha a sensação de não ter na tela do guia os sistemas que compreendiam aquela região, mas com os sensores da nave tudo ia criando forma no monitor à medida que a nave avançava em direção a Satiland.
— Eu acho que o tradutor universal é o verdadeiro responsável pela conquista da aliança planetária. Imagine, de que adiantaria viajarmos a planetas distantes, se não pudéssemos conversar com os diferentes tipos de raças? E é com essas conversas e encontros que temos evoluído nos últimos 1000 anos. — Tox tentava convencer seus amigos do seu ponto de vista.
— Bom pode até ser, mas acho que o mérito real é da viajem em dobra. De que adiantaria podermos conversar com qualquer espécie do universo, se não pudéssemos sair do nosso sistema solar? Por outro lado, sempre tem a possibilidade de se comunicar por gestos e na pior das hipóteses desenhos. — Contrariou Wailer.
— Eu já acho que tudo se deve as câmeras de êxtase. De que adianta ter tecnologia para viajar anos em velocidade de dobra, se quando chegássemos ao lugar de destino tivéssemos envelhecido ou mesmo morrido viajando. Só com as câmeras de êxtase as viagens longas são toleráveis, e as intergalácticas possíveis. — Contra argumentou Leymar.
— Agora complicou, mas acho que são os três pilares da nossa evolução, tire um e a gente teria atrasado de maneira significativa. — Tox tentou encerrar a questão que não parecia levar nada a lugar nenhum.
Nisso uma explosão nos motores de dobra deixou todos apreensivos e a nave reduziu drasticamente sua velocidade.
— Pela galáxia, não acredito. Já ta virando tradição em nossas reuniões. — Reclamou Leymar desconsolado.
— Bem que lhe avisei para pegar uma tipo cruzeiro, essa SpaceRover pode ser robusta, mas da muito problema. — Reclamou Wailer.
— Por sorte, naquele monte de bagagens que eu trouxe tem algumas ferramentas, vou dar uma olhada. — Disse Tox pegando uma maleta e se enfiando nas engrenagens.
Depois de um tempo analisando o motor, Tox quebra o silêncio que chegava a incomodar na nave. — Bom, o problema foi no circuito do relê, acho que em um dia a gente retoma a nossa viagem.
— Ufa, pelo menos tem concerto, não precisamos esperar pelo socorro. — Disse Wailer aliviado.
— Maravilha. Como não tem muita coisa para fazer acho que podemos começar a analisar esse sistema inexplorado. — Leymar assumiu o monitor de navegação e começou a habilitar os sensores de longo alcance.
— É muita coincidência o motor pifar exatamente quando estamos passando pelos sistemas inexplorados, tu não havia planejado isso não? — Reclamou Wailer.
— Até parece que eu iria adiar nossa ida a Satiland, se tivesse planejado algo teria feito na volta, agora o que eu mais quero é chegar à festa. Porém se vamos passar um dia nesse sistema, seria interessante coletar alguns dados, pois podem ser úteis em outras viagens. — Argumentou Leymar.
— Por mim essa foi a primeira e última vez que sigo por um caminho indicado pelo seu avô, tenho quase certeza de que ele tem algo haver com isso. — Reclamou Wailer.
— Eu já acho que foi a Rita, ela disse que tinha certeza que essa viagem não poderia ser tranqüila. — Reclamou Tox.
— O que é um dia galera. O pior seria se não tivesse concerto, mas um dia passa rápido. Vejam só — Leymar apontava para o monitor — esse sistema tem um planeta classe M (planetas com condições propícias a vida inteligente).
— Incrível, como é que a aliança não catalogou essa área? Não sabia que existiam planetas classe M fora do guia, vamos nos aproximar para ver como ele é. — Disse Wailer revigorado e curioso.
— Velocidade pra ¼ de impulso. — Ordenou para o computador Leymar, vislumbrado com sua descoberta. — Já estamos nos aproximando, daqui a pouco ele estará ao alcance dos sensores e então poderemos explorá-lo. 
— Estou captando sinais de vida humanóide e grande concentração de duranium. — Wailer lia as informações no display em quanto ampliava as imagens do planeta de cor esverdeada.
— 70% do planeta composto por duranium, inacreditável. Isso poderia servir como posto de reabastecimento. Pelo que consegui captar, dos 100.000 habitantes, 90% trabalha em minas de exploração, num regime típico de escravidão. — Leymar ampliava ainda mais os pontos das minas, dando para observar os mineradores.
— Escravidão, se não fosse pelas aulas de história nem saberia o que significa. Como podem viver dessa maneira, por que não se revoltam? — Perguntou Tox já deixando a manutenção do motor de lado.
— Não estou conseguindo identificar os líderes. Ao que parece não existe ninguém ameaçando com armas, eles apenas levam o duranium para trocar por ração em grandes máquinas. As máquinas depois de cheias são substituídas por outras vazias do mesmo modelo e seguem para fora desse sistema planetário. — Observou Leymar.
— Isso realmente é muito estranho, vocês notaram que os humanos são todos parecidos? — Questionou Tox.
— Isso para não dizer idênticos. Tem como fazer uma análise de DNA para ver se são clones? — Perguntou Wailer.
— Infelizmente esse modelo de nave não vem com esse tipo de sensor. — Lamentou Leymar.
— Mais uma vez minhas bagagens quebrarão seu galho Leymar, trouxe um adaptador que se você colocar no sensor molecular ele conseguirá fazer a análise de DNA. — Disse Tox em quanto calibrava o sensor. — Parece que você tem razão Wailer, todos os seres desse planeta são clones de um mesmo material genético.
— Clones escravizados por máquinas, nas aulas de história nunca falaram nesse tipo de civilização. — Disse espantado Wailer.
— Consegue ler algum tipo de comunicação? — Questionou Tox.
— Ao que parece não existe nenhum, salve alguns sinais de fumaça que devem ter outra finalidade. O que estou achando estranho é um tipo de onda de baixa amplitude que parece interferência. — Respondeu Leymar.
— Alterne para os sensores de ondas neurais no lugar de fluxo de dados. — Pediu Tox.
— Pelas leituras, parece que todos nesse planeta estão sujeitos a um tipo de supressão neural, onde qualquer pensamento de revolta ou ira é desprezado pela mente. — Disse Leymar.
— Não é de se estranhar que essa população é escravizada sem nenhum tipo de violência. Eles são literalmente escravos conformados. Nenhuma ameaça para os exploradores. — Disse Wailer.
— Consegue rastrear a fonte da onda? — Perguntou Tox.
— Ela vem de uma torre construída nas montanhas do planeta. — Disse Leymar em quanto apontava para um ponto no monitor.
— E tem como identificar para onde vão, ou de onde vêm essas máquinas? — Perguntou Wailer.
— Tenho quase certeza que vão e vem do mesmo lugar, mas não estou conseguindo identificar a origem da tecnologia. Talvez o jeito mais fácil fosse seguir uma dessas máquinas. — Sugeriu Leymar.
— Isso está fora de questão, além de termos uma festa para ir, provavelmente o explorador não iria gostar nada de ter pessoas bisbilhotando. O máximo que podemos fazer é notificar as autoridades da aliança, para que eles conduzam o assunto da maneira que acharem necessário. — Ponderou Tox.
— Têm razão Tox, não seria prudente nos metermos com o explorador. Mas com os explorados é outra coisa. Se pudéssemos eliminar o gerador de ondas, tiraríamos o controle sobre suas mentes e assim eles mesmos se rebelariam contra seus exploradores. — Exclamou Leymar.
— E dessa forma devolveríamos o direito a ira para os escravos. Por mim é uma questão de honra, não podemos deixá-los vivendo dessa maneira sem ter o direito ao livre arbítrio. — Disse Wailer já se preparando para o tele transporte.
— Tem certeza que vocês querem fazer isso? Embora concorde com a causa, não se pode prever as conseqüências. — Insistiu Tox.
— Desativar uma antena é simples Tox, e além do mais faremos de uma maneira que pareça algum tipo de desgaste ou falta de manutenção. O que não podemos é deixar isso do jeito que está. Além do mais é o tempo de você arrumar o motor, antes disso já estaremos a bordo. — Disse Leymar se juntando com Wailer no tele transporte.
— Bom, espero que saibam o que estão fazendo, qualquer problema me contatem que tiro vocês de lá. Vou voltar para o motor, pois não quero estar aqui quando os exploradores descobrirem o que vocês fizeram. — Disse Tox acenando para os amigos.
— Então está combinado, eu e Wailer iremos para a superfície salvar os verdinhos. — Disse Leymar em quanto ativava o tele transporte.
Chegando a superfície, calibraram o tradutor universal e foram logo falar com os humanos levemente esverdeados pelo duranium.
— Saudações. Somos da aliança dos planetas e gostaríamos de conversar com seus líderes. — Leymar perguntou para um minerador que acabava de receber sua cota de ração da máquina.
— Infelizmente ninguém aqui conheceu alguém que pudesse ser chamado de líder. — Respondeu com estranha indiferença o minerador.
— E para quem vocês trabalham? — Perguntou espantado Wailer.
— Para as máquinas. — Respondeu com mesmo tom o minerador.
— E as máquinas, trabalham para quem?
— Isso não interessa, são elas quem nos alimentam. Basta colocar um quilo de duranium que ela nos provê com alimentos. E como deve ter observado, a única coisa que existe nesse planeta é duranium, então quem quer comer tem que trabalhar nas minas. Depois que a carga é completada, a máquina vai para o espaço, mas só depois de sua substituta vazia chegar e tomar seu lugar. — Respondeu o minerador já se arrumando para entrar novamente na mina. — Se quiserem se juntar a nós, basta juntar umas pedras soltas de duranium do chão e depositar na máquina para replicar uma picareta, ai com as pedras maiores da pra se alimentar melhor.
— Obrigado pela oferta, mas temos nossos suprimentos. — Respondeu Leymar meio atordoado com aquela situação.
Leymar e Wailer caminharam em direção a antena, mas antes de chegarem à metade do caminho, as ondas começaram a fazer efeito nos dois.
— Para onde estamos indo Wailer? — Perguntou atordoado Leymar.
“Destruir a antena” pensou Wailer, mas antes que pudesse dizer uma palavra já não sabia mais o que estava fazendo. — Estou com fome, por que não pegamos alguns duranium e pegamos uma ração replicada naquelas máquinas? — Perguntou Wailer.
— Ótima idéia. Parece que é melhor coisa que podemos fazer. — Respondeu com estranha indiferença Leymar.
O dia passou devagar, e já no final da tarde Tox começou a ficar preocupado com seus amigos, afinal já tinha terminado de consertar a nave e não tinha notícias deles ainda.
— Leymar, Wailer, onde estão vocês? — Perguntou Tox para o comunicador.
— Leymar, Wailer, vamos embora, a nave já está pronta e uma festa nos espera. — Tox já gritava para o comunicador.
Sem ter respostas, Tox começa a vasculhar pelo planeta atrás de seus amigos. Com o sensor de DNA consegue a localização e em poucos segundos no monitor de observação aparece seus dois amigos trabalhando nas minas, já verdes de duranium.
— Pela galáxia, as ondas fizeram efeitos neles. — Exclamou Tox atordoado.
Depois de um tempo acompanhando seus dois amigos travou o tele transporte neles e os transportou novamente para a nave.
— Tox? O que aconteceu com minha picareta? — Perguntou ainda confuso Wailer.
— Picareta? O protocolo de segurança impediu seu transporte, mas se quiser te mando para as minas novamente em quanto eu vou para Satiland. — Exclamou Tox já cansado de ficar naquele sistema planetário.
— Nossa, o sinal não era tão sutil quanto suspeitava. Talvez quando chegamos perto da fonte ele deve ter ficado mais forte e então sofremos os mesmos efeitos deles. Não podemos deixar essa antena funcionando, como não podemos descer, vamos destruí-la com o laser da nave. — Disse ainda meio atordoado Leymar.
— Isso é loucura, podemos nos complicar. Eles saberão que foi um ataque. — Disse Tox preocupado com as idéias heróicas de Leymar.
— Quem sabe se o explorador não possui sensores no planeta e nesse momento já está vindo atrás da gente. — Engrossou o coro Wailer.
— Então, esse é mais um motivo para devolvermos a raiva para esses habitantes, quando os exploradores chegarem, serão os primeiros a sofrerem as conseqüências. — Disse Leymar já mais seguro de si.
— Ok Leymar, destrua a antena, e vamos sair daqui o mais rápido possível. — Disse Tox já sem paciência.
Leymar mirou na antena e disparou o raio laser, em cinco segundos a antena explodiu e o sinal de repressão mental parou de ser emitido. Observaram alguns mineradores pararem de trabalhar e começarem a deferir golpes de marreta nas máquinas que antes os servia comida.
— Bom espero que os exploradores apareçam logo, pois sem as máquinas esses clones vão morrer de fome. Eu não quero estar aqui para quando os exploradores chegarem. — Disse Tox já guiando a nave em direção a Satiland e entrando em velocidade de dobra.
Depois de mais um dia em dobra, uma mensagem de alerta acordou os tripulantes.
— Aqui é a segurança da aliança planetária (SAP), preparem para serem abordados. — O computador transmitiu a mensagem em volume alto.
Em menos de cinco segundos dois guardas da SAP estavam na nave e começaram a questionar.
— Quer dizer que vocês gostam de seguir rotas fora do padrão? — Perguntou o guarda mais alto.
— Estamos indo para a festa em Satiland, não poderíamos seguir pelas rotas padrões, pois não daria tempo para voltar antes de nossas férias acabarem. — Respondeu com voz de sono Leymar.
— Certo, além de conduzirem uma nave alugada, por trechos fora do domínio da aliança, vocês ainda gostam de destruir antenas por onde passam? — Perguntou o guarda mais baixo.
— É que... — Gaguejou Leymar, já sem palavras se perguntava como que a segurança tinha aquela informação.
— Nós iríamos notificá-los da situação daquele planeta assim que chegássemos ao território da aliança. Nunca havíamos visto um regime de escravidão controlado por uma antena e como era um planeta fora do domínio da aliança, achamos que estaríamos salvando aquele planeta dos seus exploradores. — Disse Tox.
— Pois bem, vocês imaginam de onde vem o duranium que abastece essa nave? O que vocês fizeram foi destruir a produção que alimentava cinco sistemas planetários. — Disse um guarda já gritando no ouvido dos três.
— Nós nunca imaginávamos que isso fazia parte da política do domínio. Aprendemos na escola que o duranium era extraído por máquinas, não por clones condicionados. — Disse Wailer desencantado com suas crenças na aliança planetária.
— Bom isso foi verdade por um tempo, mas a manutenção de clones condicionados é muito inferior aos sofisticados mecanismos necessários para a extração do duranium. Alguém mais soube sobre essa descoberta que vocês fizeram?
— Não tivemos tempo de comunicar ninguém. Agora se isso tudo é tão bem escondido, por que estão nos dizendo isso agora? — Perguntou Leymar atordoado com as informações que recebeu.
— Precisávamos ter certeza de que vocês não compartilharam o que sabem com ninguém, e depois dessa bomba amnésica, nem vocês saberão o que aconteceu. — Disse o guarda mais alto.
Os guardas colocaram a máscara de gás e nisso um clarão tomou conta da nave. Um dos guardas limpou os dados da nave, deixando apenas a trajetória fixa para Satiland e sumiram da mesma forma que surgiram.
A nave continuou seu rumo, quando um alerta de chegada acordou os três amigos.
— Rapaz, fazia tempo que não dormia tanto. Vai dar pra curtir a festa desde o começo. — Disse Tox se espreguiçando.
— Nossa eu também apaguei. — Disse Wailer em quanto bocejava.
— Deve ter sido alguma coisa que a gente tomou, por que também dormi que nem uma pedra. — Disse Leymar.
— E eu como se tivesse trabalhado quebrando pedra, por que minhas costas estão doendo muito. — Disse Wailer.
— Acho que esse seu navegador está com problema, pois chegamos um dia depois do programado. — Disse Tox reclamando.
— Deve ter sido algum vazamento de plasma, diminuindo a pressão de dobra. Vou deixar a nave na manutenção. — Disse Leymar desconfiado da potência da SpaceRover.