domingo, 10 de agosto de 2025

Pilotando a Própria Cabeça


         Era um dia quente de verão quando decidi passear pela orla e respirar um pouco de maresia. Após uma longa caminhada, fui para a areia num lugar que acreditei ter um pouco mais de sossego. Uma cadeira e uma sombra com um preço amigável me convidaram para tomar uma gelada e foi nesse quadro tropical que estacionei minha vista.

         Um vendedor de quadros, que já vinha acompanhando de longe, veio se aproximando. Gosto de admirar o trabalho desses artistas e por isso não o deixaria passar sem pedir para dar uma olhada. Não precisei de muito esforço para que ele viesse direto na minha cadeira. Na verdade bastou ficar olhando que ele cresceu no horizonte, andando quase em linha reta.

         — O senhor gostaria de ver minha arte? — Perguntou um homem já na idade dos 50 e poucos anos, não muito alto, magro e com a pele já calejada de tanto sol.

         — Certamente — respondi já me debruçando sobre as várias telas que ele trazia em sua bagagem.

         Havia muitos quadros com o tema praia e todos eram realmente bem coloridos. Já tinha visto muito daquilo e meu interesse foi diminuindo à medida que não encontrava nenhum elemento inovador. Porém, um deles se destacava justamente por fugir desses temas tropicais.

         — E esse quadro diferente, está perdido? — perguntei apontando para um quadro que parecia uma corrida de Fórmula 1, mas com um circuito muito mais espetacular e em vez de carros algo parecido com foguetes. Dois foguetes voavam sobre a pista e iam de encontro a uma espécie de portal dimensional. Um grande público atrás de uma série de bandeiras compõe o horizonte.

         — Bom, esse é o mais caro. Ele vale mais que todos os outros juntos. — respondeu o vendedor, como quem puxa a vara quando percebe que o peixe mordeu a isca.

         Isso realmente me chamou a atenção e me pus a analisar com mais atenção essa distinta obra.

         — O real valor dessa obra não está na técnica, ou material utilizado, mas o que ela representa, a história por trás. — Estendeu o quadro para que eu pudesse sentir a textura, numa clara técnica apurada de venda.

         — Imagino que deva ser peculiar, mas infelizmente não vim precavido e estou sem condições de retribuir financeiramente tudo o que essa obra possa representar. — Tentava não criar falsas expectativas nessa dinâmica capitalista. — Porém, me interesso por histórias e essa eu gostaria de ouvir.

         — Sem problemas. Coloco o preço desse quadro alto mesmo, pois não tenho interesse em vendê-lo. Agora a história dele é comprida e eu estou com uma sede que não é minha, deve ser de alguém que vive lá no sertão. — Disse ele já olhando para meu copo de cerveja.

         — Se é só sede, então já está resolvido! — Acenei para o garçom pedindo mais um copo e já outra gelada para acompanhar essa resenha.

Foi somente depois de se acomodar de maneira bem sossegada e virar dois copos de um puro malte gelado que ele começou a contar.

         — Bom primeiramente como pode ver isso é uma pintura, mas na verdade é uma representação de uma fotografia especial. Acredito que já tenha ouvido falar sobre entrelaçamento quântico? — Perguntou como se estivesse querendo calibrar a história e os detalhes com a capacidade de compreensão do receptor.

         — Ah sim, aquela propriedade mimética da matéria. — Respondi surpreso pela pergunta.

         — Pois então, essa foto especial é na verdade resultado de uma tripla exposição num suporte capaz de armazenar a energia e entrelaçando quanticamente o objeto focalizado por uma câmera analógica com o objeto real.

         — Certamente isso ainda não deve estar disponível nos mercadinhos aqui da praia. — Perguntei tentando ventilar incredulidade.

         — Não estamos falando de tecnologia desse planeta. - disse isso não se importando muito com minha desconfiança. - A única coisa do planeta Terra nessa foto especial é o outro lado do portal dimensional. Ou você já viu corrida de jatos em pistas antigravitacionais?

         — Bem colocado, devia ter notado que as bandeiras em volta da pista não me parecem familiares. Em que planeta essa foto especial foi tirada? - Perguntei enquanto observava ele pedindo mais uma gelada para o garçom.

         — Um planeta do outro lado do universo, com uma civilização de alguns milhões de anos à frente da nossa. A grande questão que deveria perguntar é por que dois exemplares desse mundo avançado estão em direção a um portal cujo outro lado é um planeta primitivo. Qual a motivação nessa fuga?

         Analisando a cena realmente essa era uma questão desconcertante. Pois o objetivo de uma corrida com público não deveria ser ver os competidores sumirem para outra dimensão. Não esperando minha resposta, ele continuou.

         — A motivação meu caro é a mesma de sempre. Um pai poderoso que fez planos e mais planos para a filha, mas esqueceu que os caminhos do coração não seguem diretrizes. Veja só, como era poderoso podia dar tudo para filha, menos sua presença. A “pobre” jovem cresceu criada por um robô, o mais avançado de sua geração. Mal sabia o pai que esse mesmo robô é que iria planejar a fuga de sua filha. — Deu uma pausa para pensar e dessa vez foi o garçom que se aproveitou e trouxe outra garrafa. Tomou um pouco de ar e continuou. — A jovem sabia fazer as perguntas certas e, numa noite chuvosa, poucos dias antes do casamento planejado pelo seu pai, perguntou ao robô se seria possível ter uma vida feliz ao lado do seu amado (naquela época, um excelente piloto de corrida de foguete em pista antigravitacional). O robô ficou algumas horas cruzando todo o tipo de informação possível e impossível, calculando probabilidades revendo os detalhes e lá pela madrugada, quando a jovem dormia, ele a acordou com um sinal de positivo, dizendo que ele havia encontrado um plano com 51% de chance de dar certo.

         — Imagino que para um robô de última geração de uma sociedade super avançada algumas horas deveriam ser como séculos nos computadores que temos por aqui. — Tentei adicionar um ponto de vista naquela história surreal. — 50% parece uma chance um pouco baixa para se apostar.

         — Era o suficiente para uma mente desesperada. O robô explicou que seria preciso criar um portal dimensional para um planeta distante, tirar uma foto num suporte que entrelassasse quanticamente aquele portal e que seria preciso fazer uma segunda exposição para colocar o amado piloto na foto e assim fugirem para um longínquo planeta, onde não mais haveria qualquer empecilho para a felicidade da jovem.

         — Certo, isso explica as duas exposições. Mas existem dois pilotos em direção ao portal, a jovem também estava na corrida? — Perguntei como quem esperava que o castelo de cartas caísse.

         — A terceira exposição foi para a jovem. Para ela poder entrar na cena seria preciso que ela estivesse na mesma velocidade do piloto. Acontece que ela não sabia pilotar foguetes e inclusive pode-se ver que ela está de olhos fechados. O robô programou a pilotagem, mas era esse o ponto fraco do plano. Se os juízes da prova descobrissem que ela estava usando uma programação no foguete, ela seria desclassificada. A vistoria era feita por sorteio e metade dos competidores eram vistoriados. Por isso o plano tinha 50% de chance de dar certo.

         — Incrível! — Não achei outra palavra para acompanhar aquilo que meus ouvidos acabaram de escutar. Pedi mais uma gelada para o garçom. — Como sabe de toda essa história?

         — O casal "feliz" de outro planeta era meus pais. Na verdade eles demoraram um pouco para ficarem felizes. Meu pai contava que ele nunca tinha ouvido falar da minha mãe. Quem conseguiria se aproximar de uma pessoa criada por robôs?

         — Sua mãe fez todo o plano sem seu pai sequer imaginar?

         — Exatamente. Ele não a perdoava por isso. Dizia que iria destruir a foto e voltar a ser piloto de foguete. Imagina um piloto de foguete vir parar aqui nesse planeta nos anos 20. Era muito frustrante. — Deu uma pausa para calibrar o copo e continuou. — O tempo passou e minha mãe tinha os atributos necessários para reverter a péssima impressão que ele tinha dela. Eles começaram a se entender e tiveram uma vida feliz, com mais de 10 filhos.

         — Nossa que coisa boa! E essa foto, ficou com o robô?

         — Não, como o material podia ser reduzido a dimensões nanométricas, o robô ainda disparou um projétil na lataria do foguete com a foto, assim ela ficou no lado de cá.

         — Imagino que ninguém mais quer que ela seja destruída.

         — Ninguém. — Sorriu, recolheu os quadros, deu os comprimentos e continuou andando.

         Estava absorvendo toda a história quando o garçom apareceu já com mais uma cerveja.

         — Muito obrigado! Pode fechar a conta também por gentileza. Te perguntar: esse vendedor aparece muito por aqui? — Tentava entender um pouco mais da origem dessa história insolita.

         — Esse aí é professor de física aposentado, todo dia está aqui bebendo e contando história. Parece que vive num quadro que ele mesmo pintou. — Disse isso já indo para o balcão.

         Paguei a conta e senti que valeu a pena, pois a história continuou reverberando em minha cabeça por vários dias.

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